agosto 06, 2015

António José Forte e Aldina (Ilustração)
Uma rosa na tromba de um elefante, Parceria A. M. Pereira, 2014

 Inge Morath © The Inge Morath Foundation. USA. New York City. 1958.
The perfect eyebrow at Helena Rubinstein Beauty School
PLAY Aldina Duarte Assinatura: Arte do Fado PT.2

DECISÕES
    "Devemos ser capazes de superar facilmente um estado lastimável, ainda que com uma energia forçada. Levanto-me da poltrona, dou a volta à mesa, solto a cabeça e o pescoço, deixo os olhos ganhar luz, distendo os músculos à sua volta. Vou ao encontro de todos os sentimentos, recebo A. de forma esfuziante quando ele chegar, aceito amavelmente B. na minha sala, absorvo sofregamente, quando vem C., tudo o que se diz, apesar do sofrimento e do esforço.
    Mas, mesmo que as coisas se passem assim, cada erro que não possa ser evitado entravará tudo, o que é leve e o que é pesado, e eu vou ter de andar para trás em círculo.
    Por isso, o melhor conselho é aceitar tudo, comportarmo-nos como uma massa pesada e, ainda que nos sintamos impelidos por um vendaval, não ceder à tentação de dar um único passo desnecessário, olhar os outros com olhos de bicho, não sentir o menor arrependimento, esmagar com as próprias mãos aquilo que ainda resta da vida como um fantasma, ou seja, aumentar ainda o último silêncio, próprio do túmulo, e não aceitar mais nada a não ser ele.
    Um gesto característico de um estado de espírito como este é o de passar com o dedo mínimo pelas sobrancelhas."


Franz Kafka [1883-1924]
Parábolas e fragmentos, Assírio&Alvim, 2012
©Philippe Halsman 1954 USA. NYC. 1954. Salvador DALI.
PLAY Das Kabinette - The cabinet
PLAY The KVB Never Enough

Cruzam-se infâncias perdidas
onde sobram seres maternais.
Há vazio à boca cheia
e pintam-se máscaras ávidas de silêncio.
Talvez amanhã.

agosto 05, 2015

Reductio ad absurdum


"UM CRUZAMENTO
Tenho um animalzinho muito especial, meio gato, meio borrego. É uma herança do meu pai,mas só ganhou esta forma já no meu tempo, antes era mais borrego do que gato, mas agora tem a mesma percentagem de ambos. Do gato, a cabeça e as garras, do borrego, o tamanho e a forma, de ambos, os olhos trémulos e meigos, o pêlo macio e curto (...) Ele tem a inquietação de ambos, a do gato e a do borrego, por muito diferentes que sejam. Mas por isso ele se sente tão apertado na sua pele."

Franz Kafka [1883-1924]

Parábolas e fragmentos, Assírio&Alvim, 2012
"Dantes era funcionário, agora já não. Era um funcionário mau. Grosseirão, era um gozo para mim sê-lo. Não aceitava luvas, estais a ver, tinha de ter a minha compensação - nem que fosse dessa maneira. (...). Às vezes os requerentes chegavam-se à minha mesa para uma informação, eu rangia os dentes è laia de resposta e sentia um gozo insaciável quando conseguia pô-los aflitos. Conseguia-o quase sempre. Eram quase todos uns encolhidos- pois, requerentes."

Fiódor Dostoiévski [1864]
Cadernos do Subterrâneo, Assírio&Alvim, 2000
"Entretanto, apesar de tudo, embora seja sem dúvida possível supor-se isto e aquilo, e ainda aqueloutro, e talvez até... além disso, onde é que não ocorrem incongruências?... Se pensarmos bem, há qualquer coisa nisto... Digam o que disserem, acontecem coisas destas no mundo - raramente, mas acontecem."

Nikolai Gógol [1836]
O Nariz, Assírio&Alvim, 2002

agosto 02, 2015

Tabu

Tabu um filme de Manuel Gomes

"E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor."

Herberto Helder
Poesia Toda, Assírio&Alvim, 1990

julho 31, 2015

(IM)PERFEITO-FEMININO


©Francesca Woodman

Caminho com passos ébrios, 
embriagados pelas tintas do mundo,
cega ao vislumbre do meu sangue 
- tinta única capaz de me pintar.
Por isso, descrevo um corpo difuso,
sem anunciar as vésperas da minha nudez.
O melhor que sei pintar é um rasto, 
ou uma sombra, um esquisso das memórias
do dia em que nos despimos 
e desenhámos a denúncia da pista jugular.
No dia em que nos pertencemos, 
o mais que existiu foi pó.
E não há tinta ou sangue que jorre sobre a tela,
que o saiba pintar.
Fotograma do filme O grande silêncio do realizador Philip Gröning

POEMA
Eleges o lugar da ferida
onde falamos o nosso silêncio.
Fazes da minha vida
esta cerimónia demasiado pura.

Alejandra Pizarnik
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002

28
ficas longe dos nomes
que tecem o silêncio das coisas

Alejandra Pizarnik
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002

CARÊNCIA
Eu não sei de pássaros
não conheço a história do fogo.
Mas julgo que a minha solidão deveria ter asas.

Alejandra Pizarnik
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002
PALAVRAS
Machados,
Após cada pancada sua a madeira range,
E os ecos!
São os ecos que viajam
Do centro para fora como cavalos.

A seiva
Brota como lágrimas, como a 
Água a esforçar-se
Por recompor o seu espelho
Sobre a rocha

Que pinga e se transforma,
Uma caveira branca
Comida pelas ervas daninhas.
Anos mais tarde
Encontro-as no caminho - 

Palavras secas e indomáveis,
Infatigável som de cascos no chão.
Enquanto 
Do fundo do charco estrelas fixas
Governam uma vida.


SYLVIA PLATH
Ariel,  Relógio D'Água, 1996
"Vocês ouviram isto? Isto é vernáculo, isto é português de lei. Isto é Vicente e Camões, isto é Camilo irado e sai da boquinha de uma putinha russa, sem eira nem beira.
    - Odeio gente que se mete com a literatura e depois não sofre.
    - Crístico, muito crístico, menina.
    E hebraico. Abrir o livro e depois não viver por ele. E islâmico também, as culturas do Livro, só que essas andam a recuperar. A menina é um compêndio de incitação à violência. Acha que se as pessoas vivessem segundo os livros maiores estavam vivas?
    - Os melhores não sobrevivem."

Maria Velho da Costa
Myra,  Assírio&Alvim, 2008


    "A sala grande tinha sido transformada num salão de baile, uma discoteca luminosa, o oposto da outra onde ele a levara para ver, e ela odiara a intermitência de brutas luzes e brutas trevas, gente que dançava como marionetas a estrebuchar sem bonecreiro, sem graça e sem vida, gente que dançava mal, braços, pernas e troncos e alma sem acordo ao ritmo, debaixo de um globo de estilhaços de espelho, sem estar em si, sem entrega, a serem visto estar. Estilhaços. Sem o rilhar dos dentes do prazer, do prazer profundo: nadar, dançar, a sós, com o outro, com o mundo. Vanidade e profundeza dos sentidos em diapasão. Com o ritmo. De quê? De quem?
    Tento pensar e não chego a lado nenhum, não tenho com quê. Sou burra?
    Dissera ela a Gabriel, num serão muito aprazivelmente silencioso.
    - Welcome to the club, dissera ele a rir. Mas sabes pôr-te no que estás, Kate. Nunca terás vergonha de uma sensualidade pobre, falsa. Acredita que há gente assim, geralmente escondida num palavreado muito esperto, muito penado, num corpo morto. Não somos burros, somos bárbaros. O burro é um animal civilizado."

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    "- Vermelho e preto, darling, que boa escolha, my far lady.
    Myra sentiu-se ultrajada.
    Pensou, sentido. Disse.
    - Sou russa. Levantámos o mundo com a alavanca do bico da foice e os dentes do martelo. Tem de me receber com algo tão corriqueiro?"

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    "No andar de cima, ouviam-se agora os acordes jubilosos da Gosse Messe, Et incarnatus est [PLAY].
     Rambo disse, Detesto música, embota o ouvido de um cão. 
   És um rústico, disse Brunilde, um básico. Eles põem música para que os gritos que se seguem, gritos dela, berros dele, sejam ainda mais ferozes, para toda a vida.

Maria Velho da Costa
Myra,  Assírio&Alvim, 2008

"Gabriel Rolando deu-lhe o nome de Trovão. Que era piroso, mas era adequado, disse. E que nem sempre o bom gosto se adequa à vida vivida."

Maria Velho da Costa
Myra,  Assírio&Alvim, 2008

©Irving Penn. Man with pink face, new Guinea, 1970
QUARTO SOMENTE
Se te atreves a surpreender
a verdade desta velha parede;
e as suas fissuras, escaras,
formando rostos, esfinges,
mãos, clepsidras, 
seguramente virá
uma presença para a tua sede,
provavelmente partirá
esta ausência que te bebe.

Alejandra Pizarnik
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002