agosto 07, 2015

©Othmar Herbst Paysage Hivernal, ca. 1960
PLAY Melody Gardot Wicked Ride
Sem linguagem que(d)escreva [tão grande o universo das palavras dos nossos dias] e à página tantas das palavras que aprendi e usei, não encontrei modo de o dizer.

Firmo-me, por isso, na cadência de um sorriso: três quartos de rio pela (im)perfeição do nosso barco.
RÊVE OUBLIÊ
Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e a modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre a neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estradas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha

E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata

António Maria Lisboa [1928-1953]
in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985



fotograma de Citizen Kane de Orson Welles (1941)
"- Eu recordo-me de absolutamente tudo, jovem. É a minha maldição. É uma das maiores maldições infligidas ao homem: a sua memória. Eu fui o seu maior amigo, e comigo ele comportava-se como um porco. Não que Charlie fosse grosseiro. Mas ele fazia grosserias. Talvez não tenha sido seu amigo. Mas, se não fui, ninguém foi. TaIvez eu tenha sido a sua escada.
- O senhor ia falar sobre Rosebud.
- Você tem um bom charuto? Há aqui um médico jovem que acha que vou parar de fumar.
- Não tenho, sinto muito.
- Eu mudei de assunto. Que velho desagradável eu me tornei! Você é jornalista e quer saber a minha opinião sobre Charlie Kane. Bom, creio que ele tinha alguma grandeza interior... mas guardou-a para si. Ele nunca se entregava, nunca dava coisa alguma... apenas te deixava uma gorjeta. EIe tinha uma mente generosa. Nunca vi ninguém com tantas opiniões! Mas nunca acreditou em nada, exceto em Charlie Kane. Nunca teve uma convicção na vida, excepto Charlie Kane. Acho que morreu sem nenhuma. Deve ter sido desagradável. Claro, nós morremos sem saber o que é a morte, mas sabemos o que estamos a deixar, acreditamos em algo. Você não tem mesmo um charuto?
- Desculpe, Sr. Leland.
- Tudo bem.

Leland & Thompson, "Citizen Kane" (1941) de Orson Welles

agosto 06, 2015

António José Forte e Aldina (Ilustração)
Uma rosa na tromba de um elefante, Parceria A. M. Pereira, 2014

 Inge Morath © The Inge Morath Foundation. USA. New York City. 1958.
The perfect eyebrow at Helena Rubinstein Beauty School
PLAY Aldina Duarte Assinatura: Arte do Fado PT.2

DECISÕES
    "Devemos ser capazes de superar facilmente um estado lastimável, ainda que com uma energia forçada. Levanto-me da poltrona, dou a volta à mesa, solto a cabeça e o pescoço, deixo os olhos ganhar luz, distendo os músculos à sua volta. Vou ao encontro de todos os sentimentos, recebo A. de forma esfuziante quando ele chegar, aceito amavelmente B. na minha sala, absorvo sofregamente, quando vem C., tudo o que se diz, apesar do sofrimento e do esforço.
    Mas, mesmo que as coisas se passem assim, cada erro que não possa ser evitado entravará tudo, o que é leve e o que é pesado, e eu vou ter de andar para trás em círculo.
    Por isso, o melhor conselho é aceitar tudo, comportarmo-nos como uma massa pesada e, ainda que nos sintamos impelidos por um vendaval, não ceder à tentação de dar um único passo desnecessário, olhar os outros com olhos de bicho, não sentir o menor arrependimento, esmagar com as próprias mãos aquilo que ainda resta da vida como um fantasma, ou seja, aumentar ainda o último silêncio, próprio do túmulo, e não aceitar mais nada a não ser ele.
    Um gesto característico de um estado de espírito como este é o de passar com o dedo mínimo pelas sobrancelhas."


Franz Kafka [1883-1924]
Parábolas e fragmentos, Assírio&Alvim, 2012
©Philippe Halsman 1954 USA. NYC. 1954. Salvador DALI.
PLAY Das Kabinette - The cabinet
PLAY The KVB Never Enough

Cruzam-se infâncias perdidas
onde sobram seres maternais.
Há vazio à boca cheia
e pintam-se máscaras ávidas de silêncio.
Talvez amanhã.

agosto 05, 2015

Reductio ad absurdum


"UM CRUZAMENTO
Tenho um animalzinho muito especial, meio gato, meio borrego. É uma herança do meu pai,mas só ganhou esta forma já no meu tempo, antes era mais borrego do que gato, mas agora tem a mesma percentagem de ambos. Do gato, a cabeça e as garras, do borrego, o tamanho e a forma, de ambos, os olhos trémulos e meigos, o pêlo macio e curto (...) Ele tem a inquietação de ambos, a do gato e a do borrego, por muito diferentes que sejam. Mas por isso ele se sente tão apertado na sua pele."

Franz Kafka [1883-1924]

Parábolas e fragmentos, Assírio&Alvim, 2012
"Dantes era funcionário, agora já não. Era um funcionário mau. Grosseirão, era um gozo para mim sê-lo. Não aceitava luvas, estais a ver, tinha de ter a minha compensação - nem que fosse dessa maneira. (...). Às vezes os requerentes chegavam-se à minha mesa para uma informação, eu rangia os dentes è laia de resposta e sentia um gozo insaciável quando conseguia pô-los aflitos. Conseguia-o quase sempre. Eram quase todos uns encolhidos- pois, requerentes."

Fiódor Dostoiévski [1864]
Cadernos do Subterrâneo, Assírio&Alvim, 2000
"Entretanto, apesar de tudo, embora seja sem dúvida possível supor-se isto e aquilo, e ainda aqueloutro, e talvez até... além disso, onde é que não ocorrem incongruências?... Se pensarmos bem, há qualquer coisa nisto... Digam o que disserem, acontecem coisas destas no mundo - raramente, mas acontecem."

Nikolai Gógol [1836]
O Nariz, Assírio&Alvim, 2002

agosto 02, 2015

Tabu

Tabu um filme de Manuel Gomes

"E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor."

Herberto Helder
Poesia Toda, Assírio&Alvim, 1990

julho 31, 2015

(IM)PERFEITO-FEMININO


©Francesca Woodman

Caminho com passos ébrios, 
embriagados pelas tintas do mundo,
cega ao vislumbre do meu sangue 
- tinta única capaz de me pintar.
Por isso, descrevo um corpo difuso,
sem anunciar as vésperas da minha nudez.
O melhor que sei pintar é um rasto, 
ou uma sombra, um esquisso das memórias
do dia em que nos despimos 
e desenhámos a denúncia da pista jugular.
No dia em que nos pertencemos, 
o mais que existiu foi pó.
E não há tinta ou sangue que jorre sobre a tela,
que o saiba pintar.
Fotograma do filme O grande silêncio do realizador Philip Gröning

POEMA
Eleges o lugar da ferida
onde falamos o nosso silêncio.
Fazes da minha vida
esta cerimónia demasiado pura.

Alejandra Pizarnik
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002

28
ficas longe dos nomes
que tecem o silêncio das coisas

Alejandra Pizarnik
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002

CARÊNCIA
Eu não sei de pássaros
não conheço a história do fogo.
Mas julgo que a minha solidão deveria ter asas.

Alejandra Pizarnik
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002
PALAVRAS
Machados,
Após cada pancada sua a madeira range,
E os ecos!
São os ecos que viajam
Do centro para fora como cavalos.

A seiva
Brota como lágrimas, como a 
Água a esforçar-se
Por recompor o seu espelho
Sobre a rocha

Que pinga e se transforma,
Uma caveira branca
Comida pelas ervas daninhas.
Anos mais tarde
Encontro-as no caminho - 

Palavras secas e indomáveis,
Infatigável som de cascos no chão.
Enquanto 
Do fundo do charco estrelas fixas
Governam uma vida.


SYLVIA PLATH
Ariel,  Relógio D'Água, 1996
"Vocês ouviram isto? Isto é vernáculo, isto é português de lei. Isto é Vicente e Camões, isto é Camilo irado e sai da boquinha de uma putinha russa, sem eira nem beira.
    - Odeio gente que se mete com a literatura e depois não sofre.
    - Crístico, muito crístico, menina.
    E hebraico. Abrir o livro e depois não viver por ele. E islâmico também, as culturas do Livro, só que essas andam a recuperar. A menina é um compêndio de incitação à violência. Acha que se as pessoas vivessem segundo os livros maiores estavam vivas?
    - Os melhores não sobrevivem."

Maria Velho da Costa
Myra,  Assírio&Alvim, 2008