junho 01, 2016

Vorgeschrieben
Diese Sehnsucht
dich beim Namen zu nennen
Diese Angst
dich beim Namen zu nennen

Diese Sehnsucht
Wort zu halten
Diese Angst
nur Wort zu halten

Diese Sehnsucht nach einem Leben
das kein Gedicht wird
Diese Angst vor einem Gedicht
das ein Leben vorwegnimmt.

Pre-scrita
Esta saudade
de te chamar pelo nome
Este receio
de te chamar pelo nome

Esta saudade
de manter a palavra
Este receio
de apenas manter a palavra

Esta saudade de um vida
que não dê em poema
Este receio de um poema
que antecipe uma vida.
        
Ulla Hahn (1988) | A sede entre os limites| Relógio D'Água | 1992 |Trad. João Barrento
©Novembro
- Na saída do ombro, ao nível da cabeça.... Não, recomecemos. Entre o peito e o ventre...
- Onde?
- Esternocleidomastoideo!
- Mas o que é que te deu?
- Certo, algures mais abaixo.
- Abaixo? Quanto? Acima do umbigo?
- Da lombalização.
- Ou da sacralização?
- Com toda a certeza acima do joelho.
- Ah, por baixo da nádega.
-    ______________
- Estranha anatomia.
- Em forma.
- Em forma?
- Cilíndrica.
- Não.
- Esférica.

- Estavas a dizer o quê?
- Está bandeira amarela, é melhor não nadar.
- Ah sim. Rebolar.

maio 30, 2016

[#9] palimpsesto

- Talvez um dia entendas que sempre foste fome e sede em estado terminal.
- Mais valia acabar com a vida.
- Ou com a morte: mais valia acabar com a morte.
- De qualquer forma, eu lá sou pessoa de entender!
- Nisso tens razão. Não és pessoa de entender, de viver, de morrer.
- Concordo.
- Nem parece teu. Desde quando? Desde quando és pessoa de concordar?
- Eu, agora, concordo com tudo.
- Ou com nada! Concordar com tudo é como concordar com nada.
- Talvez seja melhor magoares-me como quem me belisca.
- Eu? Eu não sou pessoa de magoar. Mas posso sempre gritar, tentar acordar-te.
- Eu adormeci eternamente.
- Adormeceste ou acordaste?
- Adormeci, no dia em que acordei, adormeci.
- Isso é porque não sabes romper com o passado.
- Já te disse que não acredito em passado.
- Acreditas e tudo o que sobra é cobardia: não queres é rompê-lo.
- Se eu acreditasse nele, saberia como o romper.
- A sério? E isso seria como?
- Com os dentes. Só se pode romper com os dentes.
- Até deixar marca?
- Sim, especialmente a marca. Até deixar sangue. Veia. Fractura exposta.
- Tão exposto assim, não há como fazê-lo passado.
- Por isso não acredito nele.
- Acreditas em quê, podes dizer-me?
- Não!
- Porquê?
- Porque vou mudificar.
- Agora até erros ortográficos dás?
- Não é erro, muito menos ortográfico.
- Modificar escreve-se com um O.
- Sim, um O tão redondo como tu: nunca aprenderás a ler para além da letra que aprendeste.
- E tu continuas fome e sede em estado terminal.
- Mudificar: acto de ficar muda.
- O quê?
- _______________________. -
[Gesticulo como quem puxa, imaginária e continuamente, um fio de palavras da garganta: fosse a torrente de pensamentos tão fácil de estancar].
- Definitivamente: fome e sede em estado terminal!

maio 28, 2016

©Heinrich Kühn (1866 -1944)*
"Ulrich fixava a irmã, com a testa enrugada. ‹‹Um homem que não sente a necessidade de alisar um poema antigo, preferindo deixá-lo ecoar na decrepitude de um sentido meio destruído, assemelha-se àquele que jamais aplicará um nariz de mármore novo a uma velha estatueta a que falta o nariz››, pensou. ‹‹Podia chamar-se a isso ter sentido do estilo, mas não é disso que se trata. Nem do facto de o homem ter a imaginação tão viva que a falha não o incomoda. Estamos, isso sim, perante alguém que não dá qualquer valor à perfeição e por isso também não exigirá que os seus sentimentos sejam "totais".›› E, numa transição brusca, concluiu: ‹‹Ela deve beijar sem perder logo o domínio de si!›› Nesse momento, parecia-lhe que não precisava de conhecer a irmã para lá daqueles versos ditos com paixão, para saber que ela ‹‹nunca se entregava completamente a uma coisa››, que também ela era, como ele, um ser de ‹‹paixões fragmentadas››. Até se esqueceu da outra metade de si próprio, aquela que lhe pedia medida e contenção.
(...)
Ela continuava a abraçar a ombreira, com o braço erguido, e um segundo a mais estragaria certamente toda a cena. Ulrich detestava as mulheres que se comportam como se tivessem sido criadas por um pintor ou um encenador, ou que, depois de uma excitação como a de Agathe, acabam num piano artificial. ‹‹Talvez ela pudesse deslizar do seu climax de entusiasmo com a expressão um pouco idiota e sonâmbula de um médium que desperta; não terá outra saída, e também isso vai ser penoso!›› - pensou. Mas Agathe parecia saber disso, ou adivinhara no olhar do irmão o perigo que espreitava: deixou-se cair das alturas do seu entusiasmo com um salto e deitou a língua de fora a Ulrich! Mas depois ficou séria e calada..."

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. |Trad. João Barrento

[*sugestionada e gentilmente roubada dos ponteiros parados]
"Concentrar-se significa ultrapassar em permanência o nosso próprio comodismo."

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. |Trad. João Barrento

maio 27, 2016

15
Com o suspiro da amiga,
a noite inteira estremece 
porque uma carícia breve
percorre o céu deslumbrado.

Tal como se no Universo
uma força primitiva
voltasse a querer ser mãe
de todo o amor que se perde.      

Rainer Maria Rilke (1875 -1926) | Frutos e apontamentos | Relógio D'Água | 1996 | Trad. M. Gabriela Llansol

maio 26, 2016

"Na nossa língua, denken (pensar) e danken (agradecer) são palavras da mesma raiz. Quem lhes seguir o sentido, depara com o campo semântico de gedenken (lembrar), eingedenke sein (rememorar), Andenken  (recordação), Andacht (devoção). Permitam-me que vos agradeça a partir daqui."

Paul Celan (1958) | Arte Poética: O Meridiano e outros textos | Cotovia | 1996 | Trad. João Barrento e Vanessa Milheiro

Dunkles Lied

Rings ist das Leid
Und rings die Welt die dunkel fällt.
Ich bin im schwarzen Strom ein einsam hingespieltes Wiegen
Im mir ist Nacht.
Stern ohne
Tod
und Gräber.  


Canção Sombria

Em redor há a dor
E em redor o mundo que cai sombrio.
Eu sou no negro rio um embalar, para ele jogado em solidão.
Em mim há noite.
Estrela sem
Morte
nem túmulos.

Kurt Heynice (1918) | A Alma e o Caos: 100 poemas expressionistas | Relógio D´Água | 2001 | Trad. João Barrento

maio 25, 2016

42
Esta tarde, um nada passa no ar
que me faz baixar a cabeça;
quereríamos rezar pelos prisioneiros,
pela sua vida suspensa.
E ficamos a cismar nas vidas que não atam nem desatam...

Na vida que não se inclina para a morte,
e de onde o futuro se ausentou;
em que é preciso ser inutilmente forte,
e triste, inutilmente.

Em que todos os dias são espezinhados no mesmo lugar,
em que todas as noites descem ao abismo,
em que a consciência da cena fulgor da infância
o profundamente se distancia

que o nosso coração apagado não pode conceber uma criança.
Não é que a vida seja hostil;
é que se lhe mente -
isolados no bloco de um destino imóvel.      

Rainer Maria Rilke (1875 -1926) | Frutos e apontamentos | Relógio D'Água | 1996 | Trad. M. Gabriela Llansol
1
Meu coração, esta noite, fez dos anjos
cantores que se recordam...
Uma voz, quase integralmente sobreposta à minha,
atraída por este excesso de silêncio,

eleva-se e decide
nunca mais voltar à minha;
dulcíssima e intrépida,
com quem se vai ela encontrar?

Rainer Maria Rilke (1875 -1926) | Frutos e apontamentos | Relógio D'Água | 1996 | Trad. M. Gabriela Llansol
VIVO SEM VIVER EM MIM

Vivo sem viver em mim
e tão alta vida espero,
que morro por não morrer.

Vivo fora de mim,
depois que morro de amor,
porque vivo no Senhor,
que me quis só para si.
Meu coração lhe ofereci
pondo nele este dizer:
Que morro por não morrer.
(...)

Santa Teresa de Ávila (1515-1582) | Seta de fogo | Assírio&Alvim | 2011 | (trad. José Bento)

maio 23, 2016

ladrão que rouba a ladrão... não precisa pedir perdão
PLAY Rauelsson | Fluvial

"A viagem é a procura desse nada de nada, dessa pequena vertigem para lorpas..." 
Louis-Ferdinand Céline | Viagem ao fim da noite | Ulisseia | 2010

Não basta encomendar almas,
coçar a orelha como quem descobre o corpo à cabeça,
enquanto impomos à outra mão que nos ampare a trepidação da viagem.

Falta-nos coragem.
Sabemos que nos falta coragem.
Sabemos que a queda não será a mesma se a mão nos acompanhar.
Por isso, não sabemos como a largar,
não sabemos como embalar o corpo na dança comum,
impor-nos sem força, sem leis, sem gravidade,
na massa ligeira dos outros, que dançam.

É à noite, sozinhos e sós, que galvanizamos o desembaraço e lemos poesia
como quem bebe, por osmose,
do desespero comum dessa herança humana.
É à noite, sozinhos e sós, que guardamos a nossa parcela de sabedoria,
que a empoleiramos, quinhão após quinhão,
que,  silenciosamente, ficamos à espera.

E esperamos, infinitamente, dia após dia, que alguém nos compreenda.
E esperamos, infinitamente, dia após dia, que esse alguém sejamos nós.

Mas como podemos desejar andar um pouco acima do chão,
se não sabemos ler a explicação das árvores, dos pássaros,
de todas as moradas que nos foram vedadas no parto,
por nascermos sem pernas, sem olhos, sem ouvidos, sem alma?

Não basta, por isso, encomendar pernas, olhos, ouvidos e almas,
desejar ser o expoente que eleva a Diáspora da Dor,
escancarar a boca como quem sorri,
se nem o corpo sabemos entregar à dança comum.

Somos todos,
somos tantos, tantos na mesma carruagem,
empilhados a aguardar o fim da viagem:
quando nada nos garante que a bruxa nos abra a porta,
mesmo que sejamos os primeiros a chegar.