- Medo.
- Não! Foi abandono.
|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
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| ©raquelsav | Montes | Setembro 2025 |
Gostaria de me ter calado antes, havia momentos em que julgava que a minha recompensa por ter falado com tanta coragem era entrar vivo no silêncio, para poder saboreá-lo, não, não sei porquê, para sentir que me calava, unido a todo esse ar que só eu agito desde sempre, não, não é ar verdadeiro, não posso dizer, não posso dizer porque é que gostaria de me calar antes de estar morto, para ser finalmente o que sempre fui e nunca pude ser, sem receio de pior ainda tranquilamente no lugar onde estive sempre e nunca pude repousar, não, não sei, é mais simples, queria-me, a mim, queria o meu país, queria-me no meu país, só por um instante, não queria morrer como um estrangeiro, entre estrangeiros, estrangeiro na minha terra, rodeado de invasores, não, não sei o que queria, não sei o que julgava, devo ter querido tantas coisas, imaginando tantas loucuras, enquanto ia falando, sem saber ao certo quais, que fiquei cego, de desejos e de visões, tudo à mistura, mais valia ter tido cuidado com o que dizia.
Samuel Beckett | O inominável | Assírio & Alvim
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| ©raquelsav | 2024 |
PLAY Rebekah Del Rio | Llorando
No matter how no matter where. Time and grief and self so-called. Oh all to end.
Samuel Beckett | Stirrings still
PLAY Nick Cave & The Bad Seeds | Push the sky away
| ©raquelsav | 2007 | Ponte das 3 Entradas |
PLAY Fausto: Aproximação à Terra + E Fomos Pela Água do Rio
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| ©raquelsav | 20 novembro 2022 | Aula Magna |
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| ©raquelsav |
“Alexandra sentou-se na cama e acendeu o primeiro cigarro da manhã. Diante dela, no espelho da porta do quarto, via uma mulher de queixo apoiado nos joelhos, os braços a envolverem as pernas, e a pensar que uma coisa tinha aprendido pelo menos com o Steve: o medo de amar. É que toda a ânsia com que ele queria legalizar a situação não podia ter outro nome. Medo, qualquer estúpida saberia. Ou insegurança, se assim quiserem chamar.”
José Cardoso Pires | Alexandra Alpha | Publicações Dom Quixote
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| ©raquelsav | 2024 | Sintra |
PLAY J.S. Bach | Suite Francesa, n.º 5 | Interpretada por András Schiff
"J.S. Bach nunca terá saído do seu país natal, a Alemanha. Mas o facto de não ter viajado pela Europa não o terá impedido de contactar com as tradições musicais de outras culturas. Do estilo francês, conhecia os trabalho de Couperin e Rameau, que usou nas suas composições. Bach compôs, as Suites Francesas, incorporando vários elementos representativos de estilos usados por toda a Europa. A Allemande tem origem alemã, mas a Courante é uma dança proveniente de França, a Sarabande alude a uma dança espanhola e a Gigue tem origem escocesa / irlandesa. E que harmoniosas soam todas juntas! Que bom seria, nesta complexa conjuntura mundial em que vivemos, que os políticos partilhassem deste espírito de Bach. Imagine-se, que por via do Brexit, excluíamos a Gigue da Suite Francesa, seria uma pena."
[Transcrição livre, de um momento introdutório ao seu recital, do pianista húngaro-britânico András Schiff, Sintra, Centro Cultural Olga Cadaval, 23/06/2024, 11:00-13:40]
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| ©raquelsav | jun 2024 |
PLAY Joaquín Rodrigo | Concierto de Aranjuez
Farei como Shiva me ensinou:
- alimentarei de dança suave o ímpeto destruidor;
- procurarei o movimento perpétuo dos braços, na busca do equilíbrio das mãos.
E, na esperança do reencontro, conservarei intacto o Cioran.
| ©raquelsav | 2014 | Lodz |
Nuno Júdice | Fórmulas de uma luz inexplicável
| ©raquelsav | 2022 | Astúrias |
“NÓS SOMOS
Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.”
António Ramos Rosa