junho 24, 2015

©Ernst Ludwig Kirchner, Artillerymen, 1915
PLAY Hans Werner Henze  Viertes Streichquartt (1976) In memoriam Victor Jara


[CAPELA]
Vão escuros nas lenhas onde acendem
os olhos mirrados na carne

voltejam do terror em ladainha
enfermos nas bocas negras,

amam como cães, bentos pela água 
calvos ao desgosto do pai,

mostram os buracos do copo
ajoelham erectos nas chagas,

fazem na escuridão o ofício de deus,

apagam a luz dos postigos
cobrem as vísceras de incêndio,

pedem os dias a deus.

Alexandre Nave
Vão Cães Acesos pela Noite, Quasi
vésperas palestinas

nestes lugares que rodeiam a cidade,
os homens são desencontrados vultos
que transportam um país estranho:
foram deixando os mortos para trás,
despojos de uma guerra que o luxo rasurou:
nas praias inclementes sobrevoam-nos gaivotas
cuja fome é a sombra de um dia sem poeira;
nestes lugares cercados pela cidade,
abriga-se um deus que desconhece
o longo entardecer da eternidade

aqui, todos os dias são ínfimas viagens
e o teu nome vem nos outros nomes
como um emigrante clandestino

Rui Nunes
Ofício de Vésperas, Relógio D'Água, 2007

junho 23, 2015

©Francesca Woodman
PLAY Wim Mertens Gerausch
Pintar o mundo é talhar o orto ao elemento,
é fabricar o pigmento primário: 
da textura da terra;
do aroma da água;
da aurora do fogo;
na distância do ar.

Pintar o mundo é erguer a essência da mão
ao fulgor do éter,
é pintar de branco e dar cor,
é lançar a vogal à terra, amanhá-la...
é vê-la crescer.

Pintar o mundo é beber do silêncio,
com que se desenha o poema e se escreve a pintura.

Pintar o mundo é abrir a mão à paisagem 
e confiar que tudo, nela, se transfigura.



junho 22, 2015

©Francesca Woodman
PLAY Dead can Dance Anastasis

ESTES VERSOS HERÓICOS
Se tivesse uma cabeça cintilante
e as pessoas se voltassem para me olhar
nos eléctricos
e pudesse espreguiçar o meu corpo
na água luminosa
e nadar com os peixes e as serpentes de água;
se pudesse destruir as minhas penas
voando diante do sol;
pensas que ficaria neste quarto
recitando-te poemas
e construindo sonhos excessivos
com os menores movimentos da tua boca?

Leonard Cohen
Poemas e Canções, Vol I,  Relógio D'Água, 1999

sopra dente-de-leão

- As montanhas parecem acessório de filme, onde nascem os dragões
©Jacob Aue Sobol GREENLAND. Tiniteqilaaq. 2002. Greenlandic Sabine MAQE.

PLAY Cat Power Metal Heart

A metade que voa é um pássaro mítico indomável.
A outra metade são despojos de poesia consumada.
De tudo, nada sobra para ficar. De nada, tudo resta para partir.
"uma palavra vem atrás de outra, que vem atrás de outra. E levam-no para longe. Cada uma delas é o troço de um caminho que ele percorre, com um sentido diferente da anterior. Por isso há tantos desvios. Cada palavra indica um caminho que a palavra seguinte muda. Falas de um modo tão estranho: dizem-lhe. Ele sabe isso, mas nada pode fazer. Porque, embora pareça ser ele quem fala, na verdade não é: as palavras usam os seus lábios, como hóspedes que não se demoram nele, ansiosos. Nunca se perdem no mundo: perdem-se umas nas outras.(...) Dão-lhe espaço. Habituam-no a um espaço vazio. Cada vez mais vazio. Que está a crescer, até se tornar do tamanho do seu corpo."

Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009
"a fome torna equivalentes todos os bichos do mundo. Também os homens"

Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009

junho 20, 2015

All I need is Bach

PLAY Al Berto

"No centro da cidade, um grito. 
Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. 
E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os teus gestos são uma sinalização em direção à morte. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar.
Medito no meu regresso. 
Possuo para sempre tudo o que perdi. 
E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada. 
Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na tênue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. 
Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."

O erro

©Elliott Erwitt SPAIN. Madrid. 1995. Prado Museum.
PLAY Carlos Seixas Toccata e Menuet (Piano)
"Eu não cometo erros desses. Eu cometo erros daqueles.
(Não cometer o erro num lado é cometer o erro noutro. Porque há um equilíbrio entre as coisas. Há dois lados que têm coisas.)
Se tu não falhaste, procura onde falhaste, pois não há o não falhar, só o olhar para o sítio onde não se falha.
Olha, então, para o outro sítio. As tuas costas."
Gonçalo M. Tavares
Breves notas sobre a ciência, Relógio D'Água, 2012

junho 16, 2015

[#2] 100palavras... e vira o disco

[#1] 100palavras

©Elliott Erwitt NICARAGUA. Managua. 1957

quando
P   A   R   E   C   E   R
não rima com
S   E   R
PLAY Anna Calvi, David Byrne Strange Weather

junho 15, 2015

doce ironia


©Cornell Capa. International Center of Photography 
PARAGUAY. 1955. Political prisoner.
NÃO CHORO

A dor não me pertence.

Vive fora de mim, na natureza,
livre como a electricidade.

Carrega os céus de sombra,
entra nas plantas,
desfaz as flores...

Corre nas veias do ar,
atrai nos abismos,
curva os pinheiros...

E em certos momentos de penumbra 
iguala-me à paisagem,
surge nos meus olhos
presa a um pássaro a morrer
no céu indiferente.

Mas não choro. Não vale a pena!
A dor não é humana.

José Gomes Ferreira
Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, 2001, Assírio&Alvim

junho 14, 2015

PLAY This mortal coil Song to the siren

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou  em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo
todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão
de convite para o ritual do Grande Desfazer:
"Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio.". E então, solenemente, com passos de reter
tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à
despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. "Adeus! Adeus"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar
raízes... (primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão
leve... tão subtil... tão pólen... como aquela nuvem além (vêem?) - nesta
tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira, Viver sempre também cansa

in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora, 2009

junho 13, 2015


ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS
UMA SUMPTUOSA MORADA

V
Encontrei-te no caminho imaculado que leva para além dos cumes.
Sabíamos nós, no topo das nossas forças, que deveríamos deixar-nos cair, dolorosos diamantes, na água regeneradora?

Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS
UMA SUMPTUOSA MORADA

IV
(Há que admitir a nossa ausência do mundo, a nossa confortável segurança perante as marionetas inspiradas com que as crianças sonham. Há que admitir a nossa irrealidade que respeita deambulações dessas criaturas incómodas.)

Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991