novembro 20, 2015

novembro 19, 2015

PLAY Wagner-Liszt Isolde's Liebestod

Mild und leise
wie er lächelt,
wie das Auge
hold er öffnet
—seht ihr's, Freunde?
Seht ihr's nicht?
Immer lichter
wie er leuchtet,
stern-umstrahlet
hoch sich hebt?
Seht ihr's nicht?

ertrinken,
versinken, –
unbewusst, –
höchste Lust!

novembro 16, 2015

©raquelsav

PLAY J.S. Bach Kyrie Eleison - Missa H-moll BWV 232

Gravita um cheiro cego onde a palavra cessa,
mas é o hálito matinal e contínuo que fede e cala.
Não há fruta que não apodreça nem vinho que não azede,
nem parede pintada que esconda as tuas escamas de ocre e cal.
Talvez amanhã regues, na árvore, a flor que cresce
                           [e somente anoiteça, enquanto anoitece].

novembro 14, 2015

©Eduardo Gageiro
 PLAY Schoenberg Transfigured night for string sextet 


Também nós matámos o amor no medo de amar
e afundámos a ideia na palavra.

Na âncora, o suicídio diário
que nos afoga de silêncio.
Só a dor persiste
       (e serve de alimento).

novembro 08, 2015

"Espantoso! Com que angústia equívoca, a de perder e a de conservar, o homem se agarra todavia a esta vida. Pensei algumas vezes em dar um passo decisivo, face ao qual todos os meus passos anteriores mais não seriam do que infantilidades - empreender a grande viagem de descoberta. Tal como um barco ao sair do estaleiro é saudado com salvas de canhão, também eu me saudaria a mim próprio. E afinal. Será que me falta coragem? Se uma pedra me atingisse e me matasse, seria todavia uma saída."

Søren Kierkegaard (1844)
Ou - Ou. Um Fragmento de Vida, Relógio D'Água, 2013

novembro 07, 2015

PLAY Naifa Subida aos céus


"Quero ser amada só por mim
E não por andar enfeitada
Ser adorada mesmo assim
Careca, nua e descarnada

Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com perfumes a presa fácil
Com joias casacos de peles
Gosto do amor quando é difícil
E cheira ao meu hálito reles

Quero ser amada à flor da pele
Não quero peles de vison
Amada p'lo sabor a mel
Não pela cor do baton

Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com cabeleira a presa fácil
Há quem se esconda atrás dos pelos
Gosto do amor quando é difícil
De ser amada sem cabelos

Quero que me beijem a caveira
E o meu ossinho parietal
Que se afoguem na banheira
Pelo meu belo occipital

Engano de alma lego e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com carne viva a presa fácil
É ordinário e absoleto
Gosto do amor quando é difícil
Quando me aquecem o esqueleto

Quero ser amada pela morte
E p'los meus ossos de luar
Quero que os cães da minha corte
Passem as noites a ladrar

Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Sobe aos céus
Sobe aos céus

Quero ser amada só por mim
E não por andar enfeitada
Ser adorada mesmo assim
Careca, nua e descarnada"


©angela_bacon_kidwell_02
"Hey, honey
Take a walk on the wild side"


PLAY Lou Reed Walk on the Wild Sid

novembro 06, 2015


 ©Thomas Hoepker. PT 1964 Trás-os-Montes
"É tão fácil aceitar, tão fácil recusar, quando se ouve o apelo, tão fácil, tão fácil. Mas, para nós, desjanelados, no calor do nosso sangue, do nosso silêncio, para nós, que não podíamos ouvir o vento, nem ver o sol, que apelo podia chegar-nos, do tipo de tempo de que gostávamos, senão o da falsa aceitação, da falsa recusa?"

Samuel Beckett (1953)
Watt,  Assírio&Alvim, 2005

outubro 31, 2015

Sabe a lágrima que chora
a flor que não nasce
Traz nela o espelho
a imagem que sorve
Traz nela o vento
a imagem que jaz
Engole a palavra
no dia que encerra
Sorve o silêncio
da paz que vadia

outubro 29, 2015

©Irving-penn: amber-valletta-new-york-1996
PLAY Carmen McRae A song for you

MENDIGA VOZ

E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta
a cor do tempo num muro abandonado.

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.


Alejandra Pizarnik (1936-1972)
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002

outubro 27, 2015

"Watt preferia ter de lidar com coisas de que não sabia o nome, embora também isso lhe fosse penoso, a ter que lidar com coisas cujo nome, o nome comprovado, já deixara de ser o nome delas, para ele. É que, para uma coisa de que não sabia o nome, sempre podia esperar que havia de aprender-lhe o nome, um dia, ficando sossegado. Mas não podia esperar o mesmo no caso de uma coisa cujo verdadeiro nome cessara, súbita ou gradualmente, de ser o verdadeiro nome para Watt."

Samuel Beckett (1953)
Watt,  Assírio&Alvim, 2005

outubro 25, 2015

©Angelo Pál, Funk Pinkász -Dancers,c.1920

PLAY Prokofiev Piano Concerto N.2 (Evgeny Kissin)

De olhos bem fechados...

outubro 23, 2015

Ovo ou Galinha?

©Cornell Capa. International Center of Photography PARAGUAY. 1955. Political prisoner.

E  N  T  R  A  R         P  A  R  A         S  A  I  R

 ou

S  A  I  R     P  A  R  A        E  N  T  R  A  R      

 ?
©Irving Penn ultra penn dancer

MARINHA MARINHEIRA MARESIA

Eu olho para ti e o sol torna-se maior
Vai em breve cobrir-nos  o dia
Desperta com o coração e a coloração em mente
Para dissipar o mal da noite

Eu olho para ti tudo está reduzido à sua expressão mais simples
Lá fora a fundura não é muita para os barcos
É preciso dizer tudo em poucas palavras
Quando não há amor o mar dá frio

É o começo do mundo
As vagas vão embalar o céu
E tu embalas-te nos teus lençóis
Puxas o sono para o teu lado

Acorda para que eu possa seguir-te os passos
Tenho um corpo para t'esperar p'ra ir atrás de ti
Das portas da aurora às portas da sombra
Um corpo para passar a vida a fazer-te amor

Um coração para sonhar do lado de fora do teu sono.

Paul Éluard (1963)
Últimos poemas de amor, Relógio d'Água, 2002

outubro 12, 2015

©E. J. Bellocq Untitled c. 1912

PLAY Radiohead Where I End and You Begin

...  e a realidade desconjuntada a que nos emprestamos...

outubro 10, 2015

©W. Eugene Smith. “As From My Window, Sometimes Glance…”, 1957
PLAY Arvo Pärt Silentium

Neste ofício de ser vivo às vezes,
ostentamos no peito a casa e o prado,
onde procuramos o silêncio de uma oração que nos oiça.
Mas as preces que ansiamos
não vivem nas palavras,
não vivem nas imagens,
não vivem nos sons,
não nos dizem quando somos, quando havemos de ser.

Oramos vezes sem conta;
erguemos bandeiras;
cegamos às escuras;
esculpimos corpos que usamos sem conhecer
e transportamos cansados e vadios,
impacientes, inseguros, intermitentes,
insipientes, inoportunos, esses transeuntes.

Ostentamos no peito a casa e o prado -
ambos vazios - sem oração que nos oiça.
E maldizemos este ofício de sermos vivos às vezes.


©Álvaro Cunhal - Desenhos da Prisão

Não nos tornámos missionários por insistir na elegia, mas demos por nós crentes e nem o espelho pôde afirmar o contrário. Sustivemos a respiração nos intervalos. Fomos o próprio intervalo. Incendiámos o que criámos e, para não deixarmos rasto, ardemos também. E assim abandonámos a elegia, como Cristo renunciaria ser cristão.


outubro 09, 2015

Arco e Flecha

Do arco que empurra a flecha,
Quero a força que a dispara.
Da flecha que penetra o alvo
Quero a mira que o acerta.

Do alvo mirado
Quero o que o faz desejado.
Do desejo que busca o alvo
Quero o amor por razão.

Sendo assim não terei arma,
Só assim não farei a guerra.
E assim fará sentido
Meu passar por esta terra.

Sou o arco, sou a flecha,
Sou todo em metades,
Sou as partes que se mesclam
Nos propósitos e nas vontades.

Sou o arco por primeiro,
Sou a flecha por segundo,
Sou a flecha por primeiro,
Sou o arco por segundo.

Buscai o melhor de mim
E terás o melhor de mim.
Darei o melhor de mim
Onde precisar o mundo.

(Marina Silva)

outubro 05, 2015

©Imogen Cunningham Magnolia Blossom, 1925
PLAY Laurie Anderson Big Science

Esvaziamos o mundo
e há um caule em flor.

A ausência inscreve-se
num tempo que passa
e não pára em nós
        [: o milagre que fomos depura-nos
         mas não nos faz avançar].

Matamos a sede e a fome
numa seiva que não sacia.
Vamos morrendo.

Famintos,
lamentamos que o Amor-Perfeito seja uma flor
que não sabemos cuidar.

Indiferentes,
esvaziamos o mundo com o seu caule.