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janeiro 18, 2017

©Pedro_Luis_Raota | Argentina
PLAY Portishead | Roads

III
sente-se a lentidão, o peso,
minarem cada gesto; e antes
do gesto, a ideia de o fazer;
dançam agora dois a dois,
reconstituem a unidade
cindida ainda há pouco; os pares 
mortais; a vocação
de transformar o tempo em rostos;
somam-se duas mortes
e obtém-se uma criança; ela, sim:
resistirá, crecendo,
ao desgaste do dia,
procurará na outra noite
o corpo que define o seu;
protege-a a espuma, a máscara,
até de madrugada; e então,

IV
das duas uma: reproduz-se
também; ou extingue-se em si
o fluxo da dança;
não é a conjunção dos astros
que comanda tudo,
mas a cor do céu; indecifrável;
embora alguns estudos digam
que há mutações
um resíduo verde persistente;
e outros, um halo de metal,
quase cinzento, em que repousam;
ou donde se desprendem;
certas cores intermédias;
de qualquer modo, a noite
dificulta os tons, subverte-os
sem se dar por isso;

Carlos de Oliveira (1971)  | Entre duas memórias in Trabalho Poético | Assírio&Alvim | 2003

janeiro 12, 2017

   "Reduzo as medidas a uma unidade diferente: o meu próprio passo; e mecanizo-o, para encontrar equivalências na escala métrica (sem muitos erros). 
   Planifica estes elementos: preponderância de ângulos rectos na entrada e saída de cada divisão; inflexões menos sensíveis (à esquerda e à direita) no resto dos percursos: grau oscilante, segundo o sítio dos móveis (quase todos cadeiras). Certos ângulos, pode arredondá-los, tornando a marcha menos automática (melhor, suavizando-lhe o automatismo)."

Carlos de Oliveira (1978) Finisterra | 1979 | Sá da Costa

julho 05, 2016

"viver por conta própria e a sonhar por conta de alguém"

"(...) cor de minério púrpura, polidos em barros, saibos, humidade, por milénios de paciência geológica.
    Assisto (assistimos os dois) em silêncio à ressurreição das florestas, também silenciosa. Ralanti desfocado (imagem por imagem) e contudo nítido no conjunto. Examino a ideia (é-me imposta de fora: não fui eu a elaborá-la) duma catástrofe serena, planeada, às avessas, e isso assusta-me ainda mais. Exacerbando sentimentos comuns (espanto, medo), mas inserindo-se numa experiência nova (signos doutra lógica e doutra realidade), a ideia insinua que estou a viver por conta própria e a sonhar por conta de alguém."

Carlos de Oliveira (1978) Finisterra | 1979 | Sá da Costa


II
Desloca-a o frémito
do fogo: lava
explodindo lentamente;
afastando as águas
marginais; endurecendo-as
na raiz dos álamos;
enquanto ganha 
fluidez: transmutação?
paciência geológica?
fábula da terra com os seus módulos 
minerais? e líquida; liberta
irrompe, deixa
sobre os flancos 
uma espuma de chão.
       
Carlos de Oliveira (1921 - 1981)| Cristal em Sória in Trabalho Poético, 2003, Assírio&Alvim
VI
O pássaro; a sua anatomia
rápida: forma cheia de pressa,
que se condensa
apenas o bastante
para ser visível no céu,
sem o ferir;
modelo doutros voos: nuvens;
e vento leve, folhas;
agora, atónito, abre as asas
no deserto da mesa;
tenta gritar às falsas aves
que a morte é diferente:
cruzar o céu com a suavidade
dum rumor e sumir-se.
       
Carlos de Oliveira (1921 - 1981)| Cristal em Sória in Trabalho Poético, 2003, Assírio&Alvim
  "As trovoadas não param. Raios que matam gente e gado, incendeiam casa, fendem pinhais inteiros. O inferno a mudar-se, com armas e bagagens. É o que dizem nas igrejas.
   O riso franze-lhe o canto dos olhos.
   Aí tens a intuição. Aceita-a sem reservas.
   Mesmo que lamente o êxodo (e desconfio), dunas sobre dunas, a perder de vista, não lhe desagrada ver sua febre confirmada nos peregrinos, ter alguma razão.
   E as mulheres? Ficaram a cuidar do inferno?
   Não blasfemes. Partiram para sul, de filhos agarrados às saias. Têm santos a dois passos da porta. Nós escolhemos o norte, por ser mais longe.
   Pedem o quê?
   Clemência e chuva. Trazemos gado como oferenda.
   Ad petendam pluviam, claro.
  Um silêncio breve (a vibração da sala desaparece). Quando recomeçam, as vozes soam com rudeza.
   Fogo de sol a sol, relampejando nas enxadas que remédio. Na areia germina pouco pão e as regas, além da chuva, precisam de suor. Mas os lugares malignos em nossa casa, não os merecemos. Tanto sítio para pôr o inferno, e logo nos calhou a nós."
(...)

   "Vamos ao trabalho. Tragam-me um cordeiro, faz favor. E não se esqueçam: tosquiado.
   O amigo da família dirige-se à orla da floresta. Comprar um cordeiro aos peregrinos: fácil, à primeira vista; à segunda, nem tanto: existe um problema religioso importante.
   O gado já pertence aos santos e arriscar a alma, arriscamos, se valer a pena. Por trinta dinheiros, só quem nós sabemos.
   Quando fecha o negócio (tosquia incluída, de má vontade), não bate a cabeça contra as árvores, por vergonha: na feira, o mesmo dinheiro (e metade do esforço) davam sem exagero para um rebanho.
   Regressa, com o cordeiro ao colo (a criança continua a espreitar): cambaleia, sobre a álea aos ziguezagues; sapatos de calfe esfolados, meias de lã enroladas sobre os sapatos (Que largam um rasto de suor, uma baba de caracol). Nos últimos passos, levanta os joelhos à altura do queixo: única forma de aguentar o peso do cordeiro. Chegam, enovelados um ao outro. O amigo da família mal pode respirar.
   Aqui o tem. E não me agradeça (não é possível)."

Carlos de Oliveira (1978) Finisterra | 1979 | Sá da Costa

"O relógio dá horas, nós damos-lhe corda. E apenas nós podemos adiantar, atrasar, os ponteiros. Muito pouco, aliás. Mesmo resvalando na pior corrupção..."

Carlos de Oliveira (1978) Finisterra | 1979 | Sá da Costa

julho 04, 2016

"-Já calculava. O sonho custa a domesticar."

Carlos de Oliveira (1978) | Finisterra | 1979 | Sá da Costa
LÍQUENES
I
Algures,
no lugar
mais frio 
da memória,
mas nítido
como um centímetro
quadrado de neve
que pede 
a própria luz
à algidez interior,
surge
a paisagem
de líquenes,

(...)
VI
assim
se cumpre
o eclipse
gradual
sobre o centímetro
quadrado que
os líquenes
cobrem 
na memória,
assim
 a luz e a neve
se ocultam
pouco a pouco, assim
se esquece.
       
Carlos de Oliveira (1921 - 1981)| Trabalho Poético, 2003, Assírio&Alvim

dezembro 10, 2015

©raquelsav
"Medir a felicidade. Que dizer destes fogachos transitórios? Não chega a penitência. Aos que têm o fogo das trovoadas, a cal nas sepulturas, como exercício do fogo verdadeiro (do inferno para sempre). Um nada, que flutua em nós, controla o acaso ou perde a ocasião (irrepetível). Fazer contas e errá-las: a soma que se chama alma. A bom entendedor meia palavra basta. Quanto ao resto, os vultos a arderem no desenho, quem levanta a mão contra o nosso corpo e o nosso gado? Quem se antecipa a Deus?"

Carlos de Oliveira (1978)
Finisterra: Paisagem e povoamento, Sá da Costa, 1979

©Angela Bacon-Kidwell



"Preciso de medir a casa. Os quartos, um a um: comprimento, largura, pé-direito. Avaliar a superfície entregue à névoa e os seus pontos frágeis (janelas, portas e postigos). Conhecer melhor o brilho da cera delida ou a sombra que se oculta nas galerias de caruncho; e o pó, as manchas de humidade nos tectos, a serradura interior da madeira. Numa tarde assim, tão cheia de água, registar ainda o fino diapasão das goteiras, a pouca transparência lá de fora, cada vez mais turva: como absorve ela o murmúrio dos móveis?"

Carlos de Oliveira (1978)
Finisterra: Paisagem e povoamento, Sá da Costa, 1979

"Tem a realidade o fascínio dum tesouro escondido? Creio bem que sim. E a entrega mecânica à tentação acaba por destruir-nos. O real não é diabólico em si mesmo. Longe disso. Mas podemos (oxalá não esteja a aproximar-me da confusão) contaminá-la sem saber."
Carlos de Oliveira (1978)
Finisterra: Paisagem e povoamento, Sá da Costa, 1979
"Porquê a lagoa tão pequena?
Ia chover. Lembrei-me com certeza duma gota de chuva. E tinha sede, já te disse. Quando temos sede, a água parece sempre pouca."


Carlos de Oliveira (1978)
Finisterra: Paisagem e povoamento, Sá da Costa, 1979

abril 28, 2015


©Ferdinando Scianna. ITALY. Sicily. Province of Messina. Capizzi. 1982
INFÂNCIA
I
Terra
sem uma gota 
de céu.


II
Tão pequenas
a infância, a terra.
Com tão pouco
mistério.

Chamo às estrelas
rosas.

E a terra, a infância
crescem
no seu jardim 
aéreo.


III
Transmutação
do sol em oiro.

Cai em gotas,
das folhas,
a manhã deslumbrada.


IV
Chamo
a cada ramo
de árvore
uma asa.

E as árvores voam.

Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.

É o outro lado
da magia.


E a nuvem
no céu há tantas horas,
água suspensa
porque eu quis,
desmorona-se e cai.

Caem com ela
as árvores voadoras.


VI
Céu
sem uma gota
de terra.


Carlos de Oliveira
Trabalho Poético, 2003, Assírio& Alvim

abril 27, 2015


4.
Desço 
para o centro da terra,
atravessando o sono inicial
dos fetos líquidos dos lagos.

E passando, levemente acordo
os profundíssimos olhos verdes, vagos,
das águas esperando
o calor filial dos peixes.

No dorso destes espírito dorido
que flutua pelas eternas penumbras,
cavalgo devassando as fontes da vida
donde goteja um leite amargo e turvo.

5
(E descendo
é como se descesse dentro de mim
nas cobardias-detritos das águas,
nos heroísmos-resíduos das fráguas.

E seja por que for
no suor anónimo das mágoas):
Carlos de Oliveira
Trabalho Poético, 2003, Assírio& Alvim


VIANDANTE
Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

Carlos de Oliveira
Trabalho Poético, 2003, Assírio & Alvim

abril 25, 2015

Cantos de trabalho - 1972 - Cava da manta


Cantar 
é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras
fique embora mais breve a nossa vida.

Carlos de Oliveira
Trabalho Poético, 2003, Assírio & Alvim