julho 14, 2015

"De todos os tremendos disparates e bruscas precipitações do Turkey à tarde, aconteceu-lhe um dia humedecer um bolo de gengibre entre os lábios e espetar com ele numa hipoteca, a servir de selo. Estive por um triz para o despedir. Mas ele amoleceu o meu intento ao fazer uma vénia oriental, e dizendo:
- Com o devido respeito, senhor, foi generoso da minha parte fornecer-lhe por minha própria conta artigos de papelaria."

Herman Melville
Bartleby, Assírio&Alvim, 2010
(Trad. Gil de Carvalho)

Robert Musil


©Eduardo Gageiro
  "ROBERT MUSIL
     Sabe-se que a inteligência média de um país não depende dos beijos ou da ternura dentro de uma família. Depende dos cálculos, quantidade e qualidade de máquinas, e fundamentalmente da linguagem. A análise de uma frase é a melhor régua da inteligência.
     Nenhuma conspiração será mais eficaz do que a dos mudos. Ninguém os ouvirá conspirar. Semelhante raciocínio em ironia sádica poderia dizer: nenhuma acção será tão eficaz como a dos amputados de braços: ninguém o verá agir.
      A crueldade, no entanto, esta ou outra, poderá ser reduzida a uma hipótese de raciocínio, a uma mera associação de palavras, algo, enfim, que diz respeito ao domínio de uma língua e não à maldade simples.
     Todas as sensações ou actos são raciocínios que falharam."
Gonçalo M. Tavares
Biblioteca, Campo das letras, 2006 
 Cornell Capa © International Center of Photography USA. New York City. 1957.
American evangelist Billy GRAHAM delivers a sermon at Madison Square Garden.
" - Não fiques outra vez assim! Ninguém é como tu. Eles não me desprezam como tu; só fingem, para depois poderem ser diferentes. (...) Tu é meigo... e eu amo-te...!

(...)
É verdade, há pensamentos mortos e pensamentos vivos. O pensamento que se move na superfície iluminada, que pode a cada momento ser reconstituído seguindo um fio de causalidade, de modo nenhum é o pensamento vivo. Um pensamento que encontramos por esta via será sempre algo de indiferente, como um homem qualquer na coluna de soldados em marcha. Um pensamento - e ele pode ter já passado pelo nosso cérebro há muito tempo - só se torna vivo no momento em que alguma coisa que já não é pensamento, que já não é lógica, se junta a ele, de tal modo que sentimos a sua verdade, para lá de toda a legitimação, como uma âncora que se soltou e nos entrou pela carne irrigada de sangue, viva...
A percepção verdadeiramente grande de alguma coisa só em parte se dá no círculo de luz do cérebro; a outra parte situa-se no terreno escuro do mundo interior, e é acima de tudo um estado de alma na ponta mais extrema do qual pousa, como uma flor, o pensamento."

Robert Musil
As perturbações do Pupilo Törless, Dom Quixote, 2005
(Trad. João Barrento)

julho 13, 2015

Medir o mundo dedo a dedo,
quando um palmo não basta.

"Nós dois nunca falámos muito a sério sobre estas coisas; afinal, não gostamos de gastar muitas palavras com elas. Mas agora já vês como são vulneráveis os pontos de vista sobre o mundo que as pessoas aceitam sem pensar. Ilusão, é o que é, engano, debilidade mental! Anemia cerebral!O entendimento nelas só dá para ir buscar à cabeça aquelas explicações científicas; cá fora, elas congelam, percebes?

(...)
Tu não me compreendes. Não percebes o que me interessa. Se a matemática me causa problemas (...) é porque eu procuro por detrás dela coisas muito diferentes das tuas, nada de sobrenatural. É precisamente o natural que eu procuro, percebes? Nada fora de mim - é em mim que busco, em mim. Qualquer coisa natural, que, apesar disso, não compreendo! Mas isto é precisamente o que tu não sentes, nem o outro, o da matemática... Ora, deixa-me em paz com as tuas especulações!"

(...)
Ah, como é fácil ser inteligente quando não se conhecem todas as perguntas..."

Robert Musil
As perturbações do Pupilo Törless, Dom Quixote, 2005
(Trad. João Barrento)

Back to basis, or not.

A primeira televisão que chegou à Chamusca - campanha da "Farinha Predilecta".
PLAY Savina Yannatou Me to feggari perpato
©Francesca Woodman, On Being an Angel, 1977
"Enquanto Reiting falava, Törless ouvira calado, de olhos fechados. De vez em quando sentia um arrepio até à ponta dos dedos, e as ideias subiam-lhe à cabeça descontroladas e desordenadas, como bolhas em água a ferver. Diz-se que é assim quando vemos pela primeira vez a mulher que está destinada a envolver-nos numa paixão devastadora. Afirma-se que há momentos desses, em que nos dobramos sobre nós mesmos, ganhamos forças, sustemos a respiração, momentos de extremo silêncio e concentração interior de grande tensão entre duas pessoas. Ninguém pode dizer o que acontece em tais momentos. É como a sombra antecipada da futura paixão, uma sombra orgânica, um alívio de todas as tensões anteriores e ao mesmo tempo um estado de súbita e nova dependência em que está contido já todo o futuro; uma incubação concentrada na ponta de uma agulha... E é ao mesmo tempo um nada, uma sensação dúbia e indefinida, uma fraqueza, um medo."

Robert Musil
As perturbações do Pupilo Törless, Dom Quixote, 2005
(Trad. João Barrento)

julho 07, 2015

"As lembranças daquelas visitas configuravam-se numa estranha forma de tentação. Bozena aparecia-lhe como uma criatura de uma baixeza monstruosa, e a sua relação com ela, as sensações por que passava eram um ritual cruel de auto-sacrifício. Excitava-o a ideia de deixar para trás todo aquele mundo em que vivia encerrado, a sua posição privilegiada, os pensamentos e sentimentos que lhe impunham, tudo aquilo que não lhe dava nada e o oprimia. Excitava-o a ideia de fugir para junto daquela mulher numa corrida louca, nu, despojado de tudo."
Robert Musil
As perturbações do Pupilo Törless, Dom Quixote, 2005
(Trad. João Barrento)

julho 03, 2015

©Francesca Woodman- House #3, Providence, Rhode Island, 1976


Imagino um Corpo edificante,
louca inocência consentida:
mecânica pura,
engrenagem de corpo:
corpo a corpo
talhada.

Imagino um verbo,
e um poema:
O-poema inscrito,
espelho-Corpo,
Corpo-ricochete
queda amparada.

Imagino
um Corpo,
um tempo,
uma palavra,
uma voz infantil:
    [onde o crepúsculo não se esgote.]
©Henri Cartier-Bresson. Camondo-stairs-Istanbul-1964
PLAY Madredeus O paraíso

Inscrevo a nossa sede de impossível
(como namorados os seus corações)
nos troncos das árvores
na manhã metálica e brunida
em bolas de sabão
em todas as faces

Manuel de Castro
Bonsoir, Madame, Alexandria: Língua Morta, 2013

The great Escape

"Não é pequena lástima e confusão que, por nossa culpa, não nos entendamos a nós mesmos, nem saibamos quem somos. Não seria grande ignorância, minhas filhas, que perguntassem a alguém quem era e não se conhecesse, nem soubesse quem foi seu pai, nem sua mãe, nem sua terra? Pois, se isto seria grande estupidez, sem comparação é maior a que há em nós quando não nos procuramos saber que coisa somos e só nos detemos nestes corpos; e assim, só a vulto sabemos que temos alma, porque o ouvimos e porque no-lo diz a fé. Mas, que bens pode haver nesta alma ou quem está dentro dela, ou o seu grande valor, poucas vezes considerarmos; e assim se tem em tão pouco procurar com todo o cuidado conservar sua formosura. Tudo se nos vai na grosseria do engaste ou cerca deste castelo, que são estes corpos."

Santa Teresa de Jesus (Ávila),
As Moradas, Edições Carmelo 2006

julho 02, 2015

fotograma de Cavalo de Turim de Béla Tarr
Não nos curamos - mudamos de vício;
Aborrecemo-nos com o que nos dizemos - cada um de nós é muito pouco para se bastar;
Somos demasiado egoístas para um diálogo - mas incapazes de sustentar um solilóquio;
Crescemos como seres de inaudíveis silêncios - matamos por algo que nos acompanhe. 
      [em último caso, a nós próprios]
"Ele não sabe, mas há tantos mundos como distâncias a que se está do chão, e hoje as mulheres louras não o olham, ou melhor, não o vêem, e os que o vêem não o olham, porque há um conhecimento que vem da proximidade da indiferença. Ele não sabe, mas o seu mundo é o dos que, vendo-o, não o olham, e sabem, e este facto tornou-lhe estranha toda a sua vida, foi ao longo dela e roubou-lha e a sua vida pertence agora a outro, e há nela o vazio de uma casa assaltada."

"nunca foi crente, mas sempre fingiu acreditar para sobreviver. E fingiu tão bem que acabou a acreditar. A crença porém é uma questão de palavras, do seu excesso ou da sua falta. E ele agora não fala. Limita-se a olhar. E a perder-se no labirinto de luz, no resíduo periférico da paisagem, com a sua nitidez inatingível. No centro, uma mancha cresce e empurra o mundo: de início os objectos curvavam-se, como num espelho convexo, mas depois começaram a diluir-se, até se apagarem. E a luz expandiu-se, tornou-se o seu medo. De se perder nela. De à sua volta tudo ficar turvo. Esta luz podia ter um nome consolador. Mas não tem, são simplesmente os olhos a morrer. dantes, quanto mais falava, mais claros ficavam os objectos. E, quando definitivamente se calou, o mundo tinha uma nitidez insuportável. Depois, os seus olhos adoeceram. A luz que os tornava nítidos explodiu. Uma lenta explosão desintegrou formas, limites, cores e distâncias. E ele aprendeu a desviar os olhos, para ver, tentar captar uma nitidez primitiva. Às vezes perguntam-lhe por que não me olhas?
E ele responde: para te ver

é um homem anónimo: morte encerrada na morte. O seu nome morreu quando morreram os que o chamavam. E o tempo serviu-lhe para arrancar todas as raízes. Liberta, a morte repetiu-se.

De manhã, os caminhos são nítidos. Depois, a luz apaga-os.
O homem dobrado sobre a terra soletra o pó. E a mesma palavra endurece-lhe os lábios. Até nada dizer. O silêncio responde ao silêncio. Entre eles o gesto apaga-se, desenhando-se.

Com a tua sombra, abre na luz a porta"


Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009

julho 01, 2015

"Tudo isto era tão disparatado e os erros dos outros amestradores de cavalos pareciam-lhe, por vezes, tão assustadoramente chocantes, que até levantou suspeitas sobre si próprio, pois era quase impossível que um indivíduo isolado, ainda para mais inexperiente, impulsionado somente por uma convicção não comprovada, mas sem dúvida, profunda e decididamente inabalável, acabasse por ter razão frente a todos os conhecedores da matéria."
Franz Kafka
Os cavalos de Elberfeld
Contos - 2.º Volume, Assírio&Alvim, 2012 

junho 29, 2015

PLAY Tindersticks Let's Pretend

RESERVADO AO VENENO
Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

António José Forte

in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985
PLAY Danças Ocultas Tarab
18
Tudo fica reduzido à necessidade
de preencher espaços;
em casos extremos de desespero 
    (como é este)
nem sequer importa com quê.

O importante é desterrar o vazio
exilá-lo de nós.
Ainda que o façamos sabendo
que à queda do regime
voltará,
mais forte e profundo
denunciando tudo,
ao seu lugar de origem.

Miriam Reyes
Terra e Sangue, Cosmorama Edições, 2008

junho 27, 2015

©Josef Koudelka-prague-1968
PLAY Rodrigo Leão Aviões de Papel

Como aviões de papel atirados a rios sem horizonte
que nadam, que nadam, que nadam
em pasta de papel.
[POEMA]

A noite está líquida     oclusa    vegetal
é um corpo longilíneo e desmembrado
flui como um rio de si mesmo alheio
flui e envolve presagiando cárceres
a noite tem hoje uma altitude especial
com aves negrejando lentamente
neste desintegrar-se de memória

e eu sou uma alucinação rítmica
com um tempo corpóreo a devorar
um mar excessivamente quieto na cabeça
excessivamente muscular e lúcido

a noite distribui pedaços de lua
aos farrapos    na inconsciência dos prédios
sobre a cidade    a cidade    a cidade louca
que desvairou nas minhas mãos    nos dedos
possuída de um candelabro antigo a partir-se
um lampadário cristalino e rutilante
a quebrar-se com súbitos estilhaços pela noite fora

viajo nitidamente pelo passado
na organização de um jogo de perigo:

o meu amor é a aquisição de uma técnica
um processo de transformação dos corpos
a prospecção dramática dos ritos
uma queda livre e vertical
um olhar imóvel sobre o mar
a oferta do tempo    sem comércio nem ódio
fibra a fibra
do tempo crivado de buracos    baleado
assassinado    corrupto    perdido

o meu amor é a correcta magia dos sons
a ultrapassagem da noite
fulminante e arrebatada    num círculo de fogo
coberta de engenhos de destruição
correndo extensamente sem peso

o meu amor é uma trovoada nas margens da noite
uma proposta veinulada a sangue
patrocinada pelos mortos deambulantes
e é ainda a carcassa húmida dos barcos
destroçada n'areia

a noite é um coral magnífico na noite

Manuel de Castro
in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985

junho 25, 2015

O sal da terra

©Sebastião Salgado. Poço de petróleo em chamas no Kuwait. 
PLAY Trailer O sal da terra

"Eu sempre receara ficar mais ou menos vazio; não ter, em suma, qualquer razão séria para existir. Naquele momento, perante factos estava bastante ciente do meu zero individual. Num meio tão diferente daquele onde tinha hábitos mesquinhos, foi como se me dissolvesse instantaneamente. Sentia-me perto de já não existir, muito simplesmente. Por isso, mal me tinham deixado de falar das coisas familiares, eu descobrira que nada me impedia de afundar numa espécie de irresistível tédio, numa espécie de adocicada, de assustadora catástrofe de alma. Uma aversão."

Louis-Ferdinand Céline
Viagem ao fim da noite, Ulisseia, 2010