abril 15, 2016

©Irving Penn | Photo of Igor Stravinsky | 1948
"Só as palavras rompem o silêncio, tudo o resto se calou. Se eu me calasse, não deixaria de ouvir fosse o que fosse. Mas, se eu me calasse, voltariam outros ruídos, os ruídos que as palavras não me deixam ouvir, ou que deixaram realmente de se ouvir. Mas calo-me, acontece, não, nunca, nem por um segundo. Também choro, sem parar. É uma torrente ininterrupta, de palavras e lágrimas. Tudo sem reflectir. Mas falo mais baixo, de ano para ano um pouco mais baixo. Talvez. Mais devagar também, de ano para ano mais devagar. Talvez, não dou conta. As pausas seriam portanto mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo as palavras com as lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos são a minha boca. E deveria ouvir, a cada breve pausa, se há silêncio como eu digo, ao dizer que só as palavras o rompem. Mas não, é sempre o mesmo murmúrio, fluido, sem hiato, como uma única palavra sem objectivo e portanto sem significado, porque é o objectivo que dá significado às palavras. Sendo assim, com que direito, não, desta vez sei onde quero chegar, e paro, dizendo, Nenhum, nenhum."

Samuel Beckett (1958) | Novelas e Textos para Nada | Assírio&Alvim | 2006

abril 13, 2016

©Marijpol | #Marijpol | Ferien im Sumpf | Avant-Verlag | 2014

"Senti neste momento, com uma certeza que não deixou de ser dolorosa, que nem no próximo ano, nem no seguinte, nem em mais ano nenhum da minha vida, escreverei um livro, quer latino, quer inglês: e isto pela razão estranha e penosa que a infinita superioridade do seu espírito saberá, com um olhar não obscurecido, situar no lugar o que lhe pertence no reino dos fenómenos do corpo e do espírito, aberto harmoniosamente perante si: quero dizer que a língua em que me seria, talvez, dado não apenas escrever mas pensar, não é nem o latim, nem o italiano, nem o espanhol, mas uma língua de que não conheço uma só palavra, uma língua com que as coisas mudas me falam e na qual deverei talvez um dia, do fundo da campa, justificar-me perante um juiz desconhecido."

Hugo von Hofmannsthal (1901) | A carta de Lorde Chandros | Relógio D'Água |2015
©SóniaOliveira

#DavidSoares |  O poema morre  | Kingpin Books | 2015

©Luis Quiles
"Hoje, é cada vez mais difícil "ser-se si próprio", descobrir um espaço de diferença para o seu idioma, o seu estilo e a sua sensibilidade. Sob a pressão do êmbolo dos meios de comunicação e da publicidade, até mesmo os nossos sonhos se uniformizaram. Como o pão que comemos, grande parte da nossa existência chega-nos pré-confeccionada. Só em segredo cada um de nós celebra a insolente maravilha de si próprio, só em segredo respiramos - ó enigma da sensualidade! - o cheiro da nossa própria sujidade."

George Steiner (1968)
Extraterritorial, Relógio D'Água, 2014

abril 12, 2016

" Agora, agora têm para isso de nascer palavras como flores."

Brot und Wein (An Heinze)

5
Unempfunden kommen sie erst, es streben entgegen
   Ihnen die Kinder, zu hell kommet, zu blendend das Glück,
Und es scheut si der Mensch, kaum weiss zu sagen ein Halbgott,
   Wer mit Namen sie sind, die mit den Gaben ihm nahn.
Aber der Mut von ihnen ist gross, es füllen das Herz ihm
    Ihre Freuden und kaum weiss er zu brauchen das Gut,
Schafft, verschwendet und fast ward ihm Unheiliges heilig,
   Das er mit segnender Hand törig und gütig berührt.
Möglichst dulden die Himmlischen dies; dann aber in Wahrheit
   Kommen sie selbst und gewohnt werden die Menschen des Glücks
Und des Tags und zu schaun die Offenbaren, das Antlitz
   Derer, welche, schon längst Eines und Alles genannt,
Tief die verschwiegene Brust mit freier Genüge gefüllet,
   Und zuerst und allein alles Verlangen beglückt;
So ist der Mensch; wenn da ist das Gut, und es soget mit Gaben
   Selber ein Gott für ihn, kennet und sieht er es nicht.
Tragen muss er, zuvor; nun aber nennt er sein Liebstes,
   Nun, nun müssen dafür Worte, Wie Blumen, entstehen.       


Pão e Vinho
5
Vêm primeiro sem serem sentido, as crianças correm
   Ao seu encontro; por demais clara e ofuscante a ventura,
E o homem tem medo; e mesmo um semideus mal sabe dizer
   Quem são pelos nomes os que deles se aproximam c'os dons.
Mas grande é a coragem que eles dão, enchem-lhe o coração
   As alegrias deles e ele mal sabe usar dos bens,
Cria, esbanja, e quase faz sagrado o que o não é,
   Porque o toca, louco e bondoso, co'a mão que abençoa. 
Sofrem os deuses isto quanto podem; mas então em verdade
   Vêm eles mesmos, e os homens à ventura se afazem
E à luz, e a contemplar os deuses manifestos, a face
   Daqueles que, há muito chamados já o Um e o Todo,
Encheram fundo de livre abastança o peito silente,
   E primeiro e sós satisfizeram toda a aspiração;
Assim é o homem; quando os bens 'stão presentes, e mesmo um deus
   Cuida dele com os dons, não o conhece nem vê.
Tem de sofrer, primeiro, mas agora nomeia o que mais ama,
   Agora, agora têm para isso de nascer palavras como flores.     


Hölderlin (1770 - 1843)
Poemas, Relógio d'Água, 1991
NACH DEM LICHTVERZICHT:
der vom Botengang helle,
hallende Tag.

Die blühselige Botschaft,
schriller und schriller,
findet zum blutenden Ohr.

AFTER THE LIGHTWAIVER:
the day, bright, re-
sounding from the errand.

The flowersome message,
shriller and shriller,
finds to the bleeding ear.

Paul Celan
Eingedunkelt in
Breathturn into timestead: the collected later poetry, FSG, 2014
(Translated by Pierre Joris)

abril 08, 2016


Samuel Beckett em Berlim, 1969

"Hoje, temos motivos para supor que Samuel Beckett é o escritor por excelência, no qual outros autores dramáticos e outros romancistas descobrem o reflexo concentrado dos seus combates e privações. Monsieur Beckett é métier - até à última fibra do seu ser compacto e esquivo. Não há nele um único movimento perceptivelmente inútil, um único gesto de ostentação, uma única concessão - ou, pelo menos, concessão detectável - ao ruído das imprecisões do mundo."

George Steiner (1968)
Extraterritorial, Relógio D'Água, 2014

abril 07, 2016

Brot und Wein (An Heinze)

3

Auch verbergen umsonst das Herz im Busen, umsonst nur
    Halten den Mut noch wir, Meister und Knaben, denn wer
Möcht es hindern und wer möcht uns die Feude verbieten?
    Göttliches Feuer auch treibet, bei Tag und bei Nacht,
Aufzubrechen. So komm! dass wir das Offene schauen,
    Dass ein Eigenes wir suchen, so weit es auch ist. (...)


Pão e Vinho
3

Em vão escondemos também o coração no peito, em vão
    Mantemos o ânimo ainda, mestres e meninos, pois
Quem quereria impedi-lo e quem quereria impedir-nos a alegria?
    Fogo divino incita também, de dia e noite,
A partir. Vem, pois! pra contemplarmos o espaço aberto,
    Para buscarmos algo do próprio, por longe que esteja.(...)


Hölderlin (1770 - 1843)
Poemas, Relógio d'Água, 1991

abril 05, 2016

"Podemos começar pela singular predilecção que o pensamento científico tem por explicações mecânicas, estatísticas, materiais, às quais, poderia dizer-se numa imagem, foi arrancado o coração. Ver na bondade apenas uma forma especial de egoísmo; relacionar as emoções com secreções internas; constatar que o ser humano é formado, em ou nove décimos, por água; explicar a célebre liberdade moral do carácter como apêndice mental automático do comércio livre; atribuir a beleza a uma digestão fácil e a bons tecidos adiposos; reduzir a procriação e o suícidio a gráficos anuais que mostram como necessidade aquilo que parece ser a mais livre das decisões; estabelecer afinidades entre o êxtase e a demência; equiparar o ânus e a boca, como extremidade rectal e oral da mesma coisa...: este tipo de concepções, que, por assim dizer, põem a descoberto o truque por trás do passe da mágica das ilusões humanas, contam sempre uma espécie de preconceito favorável que as faz passar por particularmente científicas. O que aí amamos é, de facto, a verdade; mas à volta desse amor nu há um gosto pela desilusão, a violência, a inexorabilidade, a fria intimidação e a seca admoestação, uma maliciosa predilecção, ou pelo menos uma involuntária emanação emocional desse tipo.
     Por outras palavras, a voz da verdade vem acompanhada por um ruído suspeito, mas aqueles a quem ela mais directamente diz respeito não querem ouvir falar disso.
 
Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)

1) Paul Celan an Ingeborg Bachmann, Gedicht und Widmung in Mattisse-Bildban, Wien 24.(?)6.1948

In Aegypten

Für Ingeborg

Du sollst zum Aug de Fremden sagen: Sie das Wasser!
Du sollst, die du im Wasser weißt, im Aug de Fremden suchen.
Du sollst sie rufen aus dem Wasser: Ruth! Noemi! Mirjam!
Du sollst sie schmücken, wenn du bei der Fremden liegst.
Du sollst sie schmücken mit dem Wolkenhaar der Fremden.
Du sollst zu Ruth, zu Mirjam und Noemi sagen:
Seht, ich schlaf bei ihr!
Du sollst die Fremde neben dir am schönsten schmücken.
Du sollst sie schmücken mit dem Schmerz um Ruth, um Mirjam und Noemi.
Du sollst zur Fremden sagen:
Sieh, ich schlief bei diesen!

Wien, am 23. Mai 1948

Der peinlich Genauen,
22 Jahre nach ihrem Geburtstag,
Der peinlich Ungenaue


Ingeborg Bachmann & Paul Celan 
Herzzeit: Briefwechsel, 2015 (4. Ed), Suhrkamp

abril 04, 2016

PLAY John Cage | Dream

"(...) as pessoas habituam-se a exigir, mas não estão por isso preparadas para que os seus desejos se realizem. (...) o lado sério da questão é que esse absurdo é aquilo que devíamos exigir! E agora não fique a pensar que com isso quero apenas dizer que nos sentimos atraídos por aquilo que é dificilmente realizável, e que não damos importância àquilo que realmente podemos ter. O que quero dizer é que há na realidade um desejo absurdo do irreal.
- (...) As pessoas ficam imensamente felizes quando as não deixam concretizar as suas ideias!
- E o que faria o senhor meu primo- respondeu Diotima, irritada - se lhe entregassem por um dia o governo do mundo?
- Só teria uma saída: abolir a realidade." 
 
Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)
"Aquilo já não era só um atentado à honra de um homem, era arrancar a honra com raiz e tudo! De noite um homem tem apenas uma camisa em cima da pele, e por baixo está logo o carácter."  
Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)

março 31, 2016

 


Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004




Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004




Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004
"Cubro com fita o espelho do estúdio.

A gargalhada pára.

E eu regresso às minhas deambulações rituais.

Os meus movimentos pela casa tornam-se tão formais como um Ballet e sinto que me tornei 
parte vital de algum processo biológico incompreensível.

Esta casa é um organismo, faminto de loucura.

É o labirinto que sonha.

E eu estou perdido"

Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004

Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004



Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004

"É por isso que uns dias ele é um palhaço infantil e outros um assassino psicopata. Ele não tem uma verdadeira personalidade.
Cria uma nova todos os dias. O Joker vê-se como o mestre do desengano e o mundo é o seu teatro absurdo. Nós... AHHH!"



"Teste de Rorschach, Dra. Ruth? A senhora sabe como eu adoro o teste de Rorschach!

Bem. Estou a ver dois anjos a foderem na estratosfera. Uma constelação de buracos negros. Um processo biológico para além da compreensão humana. Um ventríloquo judeu fechado no porta-bagagens de um Chevrolet vermelho."

Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004

março 30, 2016

HYPERIONS SCHICKSALSLIED

Ihr wandelt droben im Licht!
   Auf weichem Boden, selige Genien!
        Glänzende Götterlüfte
            Rühren euch leicht,
                Wie die Finger der Künstlerin
                    Heilige Saiten.

Schicksallos, wie der sclafende
    Säugling, atmen die Himmlischen;
         Keusch bewahrt
            In bescheidener Knospe,
                Blühet ewig
                    Ihnen der Geist
                        Und die seligen Augen
                            Blicken in stiller
                                Ewiger Klarheit.

CANÇÃO DO DESTINO DE HYPERION

Andais lá em cima na luz
   Em chão macio, génios venturosos!
        Ares divinos resplendentes
            Vos tocam de leve,
                 Como os dedos da artista
                    Cordas sagradas.

Sem destino, como dormente
    Menino, respiram os deuses;
         Pudicamente guardado
            Em casto botão,
                Eternamente
                    Lhes floresce o Espírito,
                        E os olhos felizes
                            Olham em serena
                                Claridade eterna.

Hölderlin (1770 - 1843)
Poemas, Relógio d'Água, 1991