Mostrar mensagens com a etiqueta #Herberto Helder. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #Herberto Helder. Mostrar todas as mensagens

fevereiro 17, 2016

"(...)Porque não sei como dizer-te sem milagres  
que dentro de mim é o sol, o fruto,  
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,  
o amor,    

 que te procuram."

agosto 18, 2015

©Daniel Blaufuks. Passos em Volta

    "Deus principia a inspirar-me terror. A minha unidade, sobretudo. A unidade fechada e imóvel. O universo passa bem sem mim, e o terror é uma inspiração sem mácula, dentro do que se pode alcançar.
    Não, não está ninguém junto à porta."

Herberto Helder (1963)
Os comboios que vão para Antuérpia in Passos em Volta, Assírio&Alvim, 2009

julho 17, 2015

@ Thomas Hoepker.  Trás-os Montes. 1964
PLAY Mick Harvey The River (Tim Buckley cover)

A VOZ QUASE SILÊNCIO

vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco    gasto   frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento

o homem que foi um feto    que foi um peixe
que foi o ar    que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos

ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade

garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio


Manuel de Castro
in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985

junho 29, 2015

PLAY Tindersticks Let's Pretend

RESERVADO AO VENENO
Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

António José Forte

in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985

junho 27, 2015

[POEMA]

A noite está líquida     oclusa    vegetal
é um corpo longilíneo e desmembrado
flui como um rio de si mesmo alheio
flui e envolve presagiando cárceres
a noite tem hoje uma altitude especial
com aves negrejando lentamente
neste desintegrar-se de memória

e eu sou uma alucinação rítmica
com um tempo corpóreo a devorar
um mar excessivamente quieto na cabeça
excessivamente muscular e lúcido

a noite distribui pedaços de lua
aos farrapos    na inconsciência dos prédios
sobre a cidade    a cidade    a cidade louca
que desvairou nas minhas mãos    nos dedos
possuída de um candelabro antigo a partir-se
um lampadário cristalino e rutilante
a quebrar-se com súbitos estilhaços pela noite fora

viajo nitidamente pelo passado
na organização de um jogo de perigo:

o meu amor é a aquisição de uma técnica
um processo de transformação dos corpos
a prospecção dramática dos ritos
uma queda livre e vertical
um olhar imóvel sobre o mar
a oferta do tempo    sem comércio nem ódio
fibra a fibra
do tempo crivado de buracos    baleado
assassinado    corrupto    perdido

o meu amor é a correcta magia dos sons
a ultrapassagem da noite
fulminante e arrebatada    num círculo de fogo
coberta de engenhos de destruição
correndo extensamente sem peso

o meu amor é uma trovoada nas margens da noite
uma proposta veinulada a sangue
patrocinada pelos mortos deambulantes
e é ainda a carcassa húmida dos barcos
destroçada n'areia

a noite é um coral magnífico na noite

Manuel de Castro
in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985

abril 29, 2015

Dia Mundial da Dança


Svetlana Zakharova

PLAY Svetlana Zakharova A morte do cisne

Antropofagias- Texto 3
Afinal a ideia é sempre a mesma o bailarino a pôr o pé
no sítio uma coisa muito forte
na cabeça no coração nos intestinos no nosso próprio pé
pode imaginar-se a ventania quer dizer
«o que acontece ao ar» é a dança
pois vejam o que está a fazer o bailarino que desata por aí fora
(por «aí dentro» seria melhor) ele varre o espaço
se me permitem varre-o com muita evidência
somos obrigados a «ver isso»
que faz o pé forte no sítio forte o pé leve no sítio leve
o sítio rítmico no pé rítmico?
e digo assim porque se trata do princípio «de cima para baixo
de baixo para cima»
que faz? que fazem? oh apenas um pouco de geometria
em termos de tempo um pouco de velocidade
em termos de espaço dentro de tempo
«vamos lá encher o tempo com rapidez de espaço»
pensam os pés dele quando o ar está pronto
o «problema» do bailarino é coisa que não interessa por aí além
mas são chegados os tempos de agonia
estamos «exaltados» com este pensamento de morte
é preciso pensar no «ritmo» é uma das nossas congeminações exaltadas
na realidade algo se transformou desde que ele começou a dançar
sem qualquer auxílio excepto
não haver ainda nomes para «isso» e haver os ingredientes
do espectáculo i. e. a qualidade «forte» do sítio
e pés
esperem pela abertura de negociações entre «não» e «sim»
hão-de ver como coisas dessas se passam
não vai ser fácil os recursos de designações as acomodações várias
já se não encontram às ordens de vossências
comecem a aperceber-se da «energia» como «instrumento»
de criar «situações cheias de novidade»
vai haver muito nevoeiro nessas cabeças
e ainda «coração caiu-lhe aos pés» o banal
a contas com o inesperado talvez então se tenha a ideia de murmurar
«os pés subiram-lhe ao coração»
pois vão dizendo que exagero logo se verá
também Jorge Luís Borges escreveu esta coisa um nadinha espantosa
«a lua da qual tinha caído um leão» nunca se pode saber
maçãs caem Newton cai na armadilha
quedas não faltam umas por causa das outras
os impérios caem etc. o assunto do bailarino cai
mas sempre em cima da cabeça e estamos para ver
Cristo a andar sobre as águas é ainda o caso do bailarino
«o estilo»
claro que «isto» apavora
a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir

herberto helder
Ofício Cantante, Assírio&Alvim, 2009

abril 25, 2015


Canção 
(Nahuas)

Não sei se estiveste ausente.
Deito-me contigo, e levanto-me contigo.
Durante os sonhos estás sempre ao meu lado.
Se tremem as arrecadas nas minhas orelhas,
és tu que te moves no meu coração.

Poemas Ameríndios (Poemas mudados para português por Herberto Helder)
1997, Assírio&Alvim
©Thomas Hoepker. USA. Utah. 1995. Antelope Canyon near Page

Canção 
(Tlinkites)

Se eu pudesse morrer como quisesse,
era fácil morrer com um mulher-loba.
Era doce.

Poemas Ameríndios (Poemas mudados para português por Herberto Helder)
1997, Assírio&Alvim


abril 03, 2015

CANÇÃO DO SONO
Enquanto os meus olhos percorrem a pradaria
sinto o Verão na Primavera

América do Norte, Chippewas
Versão: Herberto Helder 
Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, 2001, Assírio&Alvim

março 24, 2015

Herberto Helder

Estranho o  mudar de tempo verbal:

Existem os poetas e EXISTE o Herberto Helder

Cobre a terra mãe quatro vezes de flores numerosas.
Que se cubram os céus de flores acumuladas.
Que se cubra de névoa a terra; cobre de chuvas a terra.
Grandes águas, chuvas, cobri a terra. Cobre a terra, ó relâmpago.
Que se ouça o trovão por sobre a terra inteira; que se ouça o trovão na terra.
Que se ouça o trovão por sobre as seis regiões da terra.
Que se ouça cobrindo a terra.
A chuva, o trovão, o relâmpago.
Cobrindo a terra.

América do Norte, Zunhis
Versão de Herberto Helder
in Rosa do Mundo: 2001 poemas para o futuro. Assírio&Alvim, 20011

março 21, 2015

PLAY Herberto Helder - Rodrigo Leão

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

Herberto Helder, Poemacto in Poesia Toda, 1990, Assírio&Alvim

março 13, 2015

2+1 ?

©Bruce Davidson. USA. NYC. Irish writer Samuel BECKETT. 1964.


--Poema--
(Henri Michaux)

apreender
ou absolutamente nada apreender ou apreender com louca intensidade

Por falta do principal
apreender desordenadamente, exageradamente,

Atordoar-me

Tornar-me insecto para melhor apreender
patas em gancho para melhor apreender
insecto, aracnídeo, miriápode, ácaro
se for preciso, para melhor apreender.


Herberto Helder, 
Doze nós numa corda (poemas mudados para português por Herberto Helder). Assírio&Alvim, 1997


dezembro 25, 2014

Tríptico
II
Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando, 
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros 
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
quando as crianças acordam nas suas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei  como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo 
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

Herberto Helder, Poesia Toda

junho 21, 2014

Herberto Helder


quem fabrica um peixe fabrica duas ondas, uma que rebenta floralmente branca à direita,
outra à esquerda só com ar lá dentro,
e o ouro íngreme puxando o comêço da noite e o fim do enorme dia onde todos morremos
como filhos escorraçados ou disso a que chamam demónio da analogia,
quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde,
só depois de estar maduro, quem
baixa a mão para quebrar um sêlo há-de baixá-la
para quebrar os outros, e há-de fechar os olhos,
e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los:
e cômo pão e bebo água de olhos fechados como se fosse para sempre,
e assim, adeus a quem me vê, que eu morro inteiro para dentro,
e vejo tudo só de entendê-lo

"Servidões" Herberto Helder, 2013