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| ©raquelsav. 21 setembro 2015
PLAY Patti Smith Birdland
Quando espíritos grandes se revelam, simplesmente... |
|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
setembro 22, 2015
[#2] manual de sobrevivência
setembro 15, 2015
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| Joan Vilatobà. En quin punt del cel et trobaré?, circa 1903-1904© Hereus de Joan VilatobàCortesía Galería A34 |
António José Forte (1983)
Uma Faca nos Dentes, Parceria A. M. Pereira, 2003
"Mas aqui estava outra coisa que Watt nunca havia de saber, por não ter prestado a devida atenção ao que se passava à sua volta. Não é que esse conhecimento fosse de algum préstimo para Watt, ou de algum dano, ou lhe causasse algum prazer, ou algum desprazer, que não era nada disso. Mas achou estranho pensar nessas pequenas mudanças, os pequenos ganhos, as pequenas perdas, as coisas que se acrescentam, as coisas que se tiram, a luz dada, a luz tirada, e todas as vãs oferendas à hora, estranho pensar em todas essas pequenas coisas que se agregam ao que chega, ao que está, ao que se vai, estranho não saber nada delas, nada das que existiam desde que ele existia, nada do momento em que tinham vindo, e de como tinham vindo, e como era tudo então comparado com o antes, nada do tempo que tinham perdurado, e como tinham perdurado, e que importava isso, nada do momento em que se tinham ido, e de como tinham ido, e de como era tudo então comparado com o antes, antes de terem vindo, antes de terem ido."
Samuel Beckett (1953)
Watt, Assírio&Alvim, 2005
setembro 07, 2015
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| ©Daniel Blaufuks |
Não basta ser sincero toda a vida. Depois de tudo ainda é necessário que a nossa sinceridade seja perigosa. Perigosa para o mesmo e para a sociedade. Não deixemos a sociedade assentar arraiais sem primeiro ter reconhecido pessoalmente a cada um. A ver se, por fim, ela deixa de se ofender com o nosso sincero caso pessoal. A ver se ela acaba por uma vez com aquilo de dar mostras bem duras de ter ficado ofendida com a nossa sinceridade. Ou terá de ser sempre assim? Para ela, a nossa sinceridade será sempre a impertinência de um extraviado, a loucura de um isolado?!"
José de Almada Negreiros (1938)
Nome de Guerra, Assírio&Alvim, 2004
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"Sentir-se próximo dos que veem, não porque começa a ver mas porque os arrasta - aos que veem - para o campo onde todos são cegos."
Gonçalo M. Tavares (2010)
Matteo perdeu o emprego, Porto Editora, 2010
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"Sentir-se próximo dos que veem, não porque começa a ver mas porque os arrasta - aos que veem - para o campo onde todos são cegos."
Gonçalo M. Tavares (2010)
Matteo perdeu o emprego, Porto Editora, 2010
"É a sensação mais horrorosa que possa imaginar-se aparecer de repente a verdade a uma pessoa que faz por iludir-se. O Antunes desejava que a festa tivesse ainda mais brilho, mais artifício, mais música, mais barulho, mais fantasia, mais vertigem. Ele queria a verdadeira mentira, essa que vale tanto de noite como a verdade de dia. Mas por mais que fizesse não conseguia deixar de ver diante de si em todos os homens e em todas as mulheres caricaturas grotescas, estrangeiras, tortas, incompreensíveis, inúteis, vivas, em carne e osso, como gente, hediondas, malditas, metamorfoses que não prosseguem, que ficam informes, aos pedaços, mal feitas, mal fabricadas, erradas, empecilhos, envenenadores da memória, mascarados, oiro de cenografia vista ao pé, papelão a fingir carne, barato e sem ilusão. Eles tinham esgotada a imaginação: incapazes de ironia e de optimismo, esmagados pela realidade, esborrachados pela vida, impossibilitados, estampados, inválidos, parados. Nem verdade nem mentira, nada! Nem desequilíbrio nem erro, nada! Bonecos, fantoches, sem saída, corpos sem alma, almas que morreram primeiro do que os corpos! Gente que ia de passagem e ali ficou para sempre. Copiam, repetem, imitam, representam, mas de repente a sina escurece outra vez. Ficam os foles em vez da respiração."
Nome de Guerra, Assírio&Alvim, 2004
agosto 20, 2015
[#5] palimpsesto
- Tu é que pediste para ler.
- Achas que li? Afinal, não vesti os óculos.
- A cegueira é tão conveniente, não é?
- E tu sabes o que tens estampado no rosto, não sabes?
- Sim. A clarividência inclui-me.
- Ah, és um metafísico, portanto.
- E tu, uma palerma.
Inspirámos em uníssono. Ambos, ruidosamente, forçando a exalação de um ar, em ambos, saturado.
(_________________)
Rompeste o silêncio:
- Vens renovar?
- Claro. Renovar é tudo o que está ao nosso alcance. Já tudo foi criado.
- Pelo menos há a esperança de que a fotografia saia melhor.
- Achas que li? Afinal, não vesti os óculos.
- A cegueira é tão conveniente, não é?
- E tu sabes o que tens estampado no rosto, não sabes?
- Sim. A clarividência inclui-me.
- Ah, és um metafísico, portanto.
- E tu, uma palerma.
Inspirámos em uníssono. Ambos, ruidosamente, forçando a exalação de um ar, em ambos, saturado.
(_________________)
Rompeste o silêncio:
- Vens renovar?
- Claro. Renovar é tudo o que está ao nosso alcance. Já tudo foi criado.
- Pelo menos há a esperança de que a fotografia saia melhor.
Creio que nos encontrámos. Não são fáceis os encontros. Um encontro nasce dessa força capaz de romper o egoísmo. E nós somos tão aleatórios para sermos síncronos.
- Posso pedir-te uma coisa?
- Diz.
- Acaba de escrever o poema que estavas a escrever. Eu não te interrompo, eu não olho mais para ti.
- Posso tentar. Mas quero que olhes tão perfeitamente para mim.
- Posso pedir-te uma coisa?
- Diz.
- Acaba de escrever o poema que estavas a escrever. Eu não te interrompo, eu não olho mais para ti.
- Posso tentar. Mas quero que olhes tão perfeitamente para mim.
agosto 19, 2015
PLAY PJ Harvey The Dancer
Brincamos às vidas
e, na hora da morte,
damos água ao caule,
na esperança de reanimar
a flor.
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| ©André Kertész |
(...)
Era uma vez uma rapariga chamada Judite. Mas o seu nome verdadeiro não era Judite. Só às vezes, em ocasiões muito íntimas, é que ela esteve quase para dizer tudo:
- Eu não me chamo Judite.
(...)
Há quem sinta prazer em proceder como anónimo. Não é ao que o autor se refere. O anónimo sabe ver.
(...)
ÀS VEZES O DIA COMEÇA À NOITE"
José de Almada Negreiros (1938)
Nome de Guerra, Assírio&Alvim, 2004
C-121
não muito longe nessa cidade com os seus milhares
de encontros às cegas houve também outras noites
como esta ao voltar para casa - os caminhos
mortos do regresso as mesmas perguntas -
e é que apesar do amor dos braços
e das pernas abertas a solidão regressa
com as suas dúvidas
Pablo Garcia Casado (1972 - )
in Trípticos Espanhóis - 3.º, Relógio D'Água, 2004
It seems so long ago, Nancy
Leonard Cohen
não muito longe nessa cidade com os seus milhares
de encontros às cegas houve também outras noites
como esta ao voltar para casa - os caminhos
mortos do regresso as mesmas perguntas -
e é que apesar do amor dos braços
e das pernas abertas a solidão regressa
com as suas dúvidas
Pablo Garcia Casado (1972 - )
in Trípticos Espanhóis - 3.º, Relógio D'Água, 2004
agosto 18, 2015
agosto 17, 2015
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| ©Gérard Castello-Lopes Untitled, Lisboa, Portugal, Undated |
Outras vezes, quero construir contigo toda a memória, só me lembrar de ti, seres tudo o que há para lembrar."
Rui Nunes [1995]
Que sinos dobram por aqueles que morrem como gado. Relógio D'Água, 1995
[#4] palimpsesto
"Ourém, Conservatória do Registo Civil, 11 de Agosto de 2015
- Olá, estás boa? - Silêncio.
Não acredito. Deixaste cair a porra do lápis de propósito, só para testar os meus dotes de Don Juan? És tão previsível!"
- Desculpa, posso?
- Olá, estás boa? - Silêncio.
André, vê se te convences! Eles não te ouvem. Estão demasiado distantes de si para te poderem ouvir. Queres escrever um coral a quantas vozes? Não te chegam as tuas? E que pergunta escusada é essa? Não vês que não? Resta-te assim tanto tempo de vida que o possas gastar em perguntas inúteis? Pergunta-lhe o que lhe faz lembrar o cheiro desta casa; se já sentiu a fúria do vento a subir-lhe pelas pernas; se, pela manhã, bebeu o café ou se o degustou; se se lavou do banho da noite; se hoje já se masturbou... enfim, pergunta-lhe algo que a possa fazer sentir-se viva. V I V A. Já sabes as respostas, de qualquer forma!
Ontem- a distância que criámos entre o que fomos e o imaginário que passamos a ser. Ontem- a palavra que branqueia o tempo e faz vacilar a dúvida e o erro que somos...
Foda-se! Não consigo. É que não consigo concentrar-me! Basta!
Por que é que tens de vir ter comigo com esses olhos lânguidos? É um pedido de socorro, é? Eu só quero escrever de mim, para mim, sobre mim. Eu só quero poder desenhar uma gaveta fechada, para não ter de ver o que nela se encerra. Não quero ver. Não quero ver-te. Desaparece. Desaparece-me. Mas quem te deu autorização para entrares assim? Já disse que não me interessas, porra! Por que é que tenho de arcar com os teus dilemas de síndrome pré-menstrual? Quero lá saber dos teus excessos de testosterona. Queres o quê? Queres que eu te chame falsa, idiota? Queres que te arranque essa máscara ridícula com que enganas meio mundo e, quase, a ti? Ou preferes que esconda a minha mão debaixo da tua saia? Deixa de ser idiota. A única coisa verdadeira em ti são essas unhas. Autenticadas pela micose que nem fazes questão de esconder. Ostentas orgulho nelas porquê? Porque são feias e fracas? E por que raio as cortas rente e não as pintas como as outras gajas? Por que não as cobres de verniz-gel, a condizer com a tua dissimulação? Sabes o que isso é, ao menos, verniz-gel? Oh pá, deixa-me em paz. Eu só quero escrever de mim, para mim, sobre mim. Já disse. Pára de me fixar com esse olhos brilhantes. Vens renovar o quê? O cartão que te dá um número? O mesmo número de sempre? O número onde te escondes de borrasca em borrasca? Tens medo de quê, afinal? De admitir que o que tens te chega e sobra à tua pobre ambição? Que vagueias como quem vive? Por que fazes tanta questão de te boicotar? Por que negas despir-te? Por que merda é que não queres ser feliz? Que enfado lírico! Estou farto de ti. De todos os outros iguais a ti. Farto do mundo. Larguem-me, porra. Eu leio-vos a milhas. Deixem-me em paz. Só quero paz! Só quero distância.
Não acredito. Deixaste cair a porra do lápis de propósito, só para testar os meus dotes de Don Juan? És tão previsível!"
- Desculpa, posso?
agosto 14, 2015
Dostoiévski
"Olhou para a filha como um homem novo olha para as pernas de uma mulher na rua, e a filha teve medo.
Mas não tenhas medo, eu sou bom.
E o velho disse: em tempo de guerra não disparar é oferecer flores. Em tempo de paz não oferecer flores é disparar.
Ela atravessou o pátio onde três guardas lhe apontavam uma arma e imaginou em cada guarda um homem que lhe estendia um ramo de flores. Mas duas armas dispararam e só uma não disparou."
Gonçalo M. Tavares (2004)
Biblioteca, Campo das Letras, 2006
[#3] palimpsesto
- Sim, tens razão. Desculpa. Eu não faço ideia do que escreveste. Usei a palavra verborreias por mero exercício lexical. Enfim, para exercer o meu direito literário ao uso de palavreado acessório.
- Ah, afinal não sublinhas, apenas. Também escreves.
- Só escrevinho.
- És escritora?
- Não, deus me livre. Amo demasiado as palavras para querer ser escritora.
- Eu empresto-te o meu lápis, se quiseres. Este é dos que escreve.
- Esquece. Não preciso de criar matéria para exacerbar a minha mediocridade. Deixa-me ler o que escreveste.
- Não trouxeste os óculos.
- Eu não uso óculos.
- Claro que usas. Tu é que não sabes.
E li, sem óculos. Mastiguei a custo. Degluti em disfagia. Não engoli.
Senti que o tempo parou. Que parámos nós nele. Numa linha de tempo cru. Num espaço como nunca antes, real.
- Então, não sublinhas?
- Ordinário.
- Ah, afinal não sublinhas, apenas. Também escreves.
- Só escrevinho.
- És escritora?
- Não, deus me livre. Amo demasiado as palavras para querer ser escritora.
- Eu empresto-te o meu lápis, se quiseres. Este é dos que escreve.
- Esquece. Não preciso de criar matéria para exacerbar a minha mediocridade. Deixa-me ler o que escreveste.
- Não trouxeste os óculos.
- Eu não uso óculos.
- Claro que usas. Tu é que não sabes.
E li, sem óculos. Mastiguei a custo. Degluti em disfagia. Não engoli.
Senti que o tempo parou. Que parámos nós nele. Numa linha de tempo cru. Num espaço como nunca antes, real.
- Então, não sublinhas?
- Ordinário.
agosto 13, 2015
[#2] palimpsesto
Hoje, voltei. Voltei a antes de ontem. O dia em que escrevias no bloco verborreias da tua memória, empilhando palavras como quem perfila tijolos numa parede sem fundações. Mas fui eu que deixei cair o lápis.
"Desculpa, posso?"- perguntavas.
E eu pensei que poder até podias mas que as minhas unhas estavam uma miséria e que a depilação já tinha dias.
"Não te preocupes com as unhas, só quero apanhar o teu lápis." - adivinhaste?
[O corpo da mulher, na sua perspectiva de mulher, há-de ser sempre uma vertigem. ]
Num movimento brusco, escondi os dedos, como se calçasse meias-pontas mas sem a candura de um elevé. Entregaste-me o lápis.
- Obrigada. Este não serve para escrever. Só serve para sublinhar.
Continuaste a escrever. E eu a sublinhar.









